A química que veio antes do lítio, foi abandonada por 45 anos e voltou como aposta industrial em 2026: a longa história do sódio-íon
Em 1980 Goodenough publicou o cátodo de NaCoO₂ junto com o de LiCoO₂. O lítio virou indústria de bilhões; o sódio foi engavetado por 45 anos. Em 2026, voltou em produção em massa. A história da química que esperou.
Redação Brasil BESS
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Em 1980, o mesmo grupo de pesquisadores que descobriu o cátodo de óxido de lítio-cobalto na Universidade de Oxford — John Goodenough e o japonês Koichi Mizushima — publicou também trabalhos demonstrando que o equivalente em sódio (NaCoO₂) funcionava de forma análoga. As duas descobertas eram tecnicamente quase idênticas. A primeira deu origem a uma indústria de US$ 100 bilhões por ano. A segunda foi engavetada por quatro décadas. Em abril de 2025, no centro de pesquisa da CATL em Ningde, província de Fujian, executivos da maior fabricante de baterias do mundo subiram ao palco para anunciar a marca Naxtra — a primeira bateria de íon-sódio em produção em massa. Em fevereiro de 2026, o primeiro carro comercial movido a sódio do mundo, o Changan Nevo A06, foi apresentado. Em abril de 2026, a CATL fechou um contrato de fornecimento de 60 GWh de células de sódio com a integradora HyperStrong — equivalente à metade de tudo o que a CATL embarcou em armazenamento estacionário em 2025. A química mais antiga do laboratório virou, em 18 meses, a aposta industrial mais cara do setor. Vale entender por quê.
Anos 1970 e 1980: pesquisa paralela, abandono assimétrico
A história do íon-sódio começa simultaneamente à do íon-lítio. Conforme revisão científica publicada por Alain Mauger e Christian M. Julien no periódico Materials em 5 de agosto de 2020, baterias de sódio (sodium-ion batteries, SIBs) começaram a ser estudadas no início dos anos 1970 — exatamente o mesmo período em que Stanley Whittingham, na Exxon, desenvolvia a primeira bateria recarregável de lítio. Componentes intercaláveis para sódio, como NaCoO₂ ou Na₂/₃CoO₂, foram descritos em literatura científica entre 1979 e 1982, em paralelo aos compostos análogos com lítio.
O que decidiu o jogo, conforme análise publicada na Chemical Society Reviews da Royal Society of Chemistry em 2017 (DOI 10.1039/C6CS00776G), foram três fatores. Primeiro, a densidade energética: o íon-sódio é mais pesado que o íon-lítio (23 g/mol contra 6,9 g/mol) e tem potencial padrão menos favorável (-2,71 V contra -3,04 V vs. eletrodo de hidrogênio padrão). Em palmilha de carro elétrico ou celular, isso significa baterias mais pesadas para a mesma capacidade.
Segundo, a cinética: o íon Na+ tem raio iônico maior que Li+, o que torna a intercalação no cristal hospedeiro mais lenta. Para aplicações que demandam alta densidade de potência — exatamente o caso dos primeiros nichos de íon-lítio, como filmadoras e celulares — sódio simplesmente não conseguia competir.
Terceiro, e talvez decisivo, a infraestrutura industrial. A própria revisão na Chemical Society Reviews registra que, durante os anos 1970 e 1980, a qualidade dos materiais, eletrólitos e câmaras de manuseio (glove boxes) era insuficiente para manipular sódio metálico de forma reprodutível. Quando a Sony comercializou a íon-lítio em 1991 com a Handycam, o lítio drenou financiamento, talento e linhas de fábrica. O sódio sobreviveu apenas em laboratórios acadêmicos com orçamentos modestos. Foi, nas palavras dos próprios autores, "abandonado por décadas" — embora, ressaltam, "a pesquisa nunca tenha sido completamente descontinuada".
2010-2020: o lento retorno
O ressurgimento começou no início dos anos 2010, em duas frentes. A primeira foi a descoberta, em 2000, de que o "hard carbon" (carbono não-grafitizável, um material amorfo) podia absorver sódio de forma reversível, resolvendo o problema crítico do ânodo. Conforme registrado em verbete técnico da Wikipédia atualizado em maio de 2026, o hard carbon entregou as primeiras capacidades comparáveis ao grafite-com-lítio, viabilizando a célula completa.
A segunda frente foi geopolítica e econômica. Conforme relatório "State-of-the-Art Electrode Materials for Sodium-Ion Batteries" de Mauger e Julien publicado em 2020, o número de publicações científicas sobre íon-sódio passou de poucas centenas por ano antes de 2010 para cerca de 9.000 publicações em 2019 e mais de 6.000 só nos primeiros seis meses de 2020. Em paralelo, o preço do carbonato de lítio (Li₂CO₃) — matéria-prima principal — disparou para faixa entre US$ 6.000 e US$ 70.000 por tonelada nos picos do ciclo de 2021-2022, segundo dados de mercado citados por publicações setoriais. O carbonato de sódio (Na₂CO₃, conhecido comercialmente como barrilha) custa, no mesmo período, ordem de US$ 60 a US$ 165 por tonelada.
A diferença não vem por acaso. Sódio é o sexto elemento mais abundante na crosta terrestre e está dissolvido em todos os oceanos do mundo. Lítio é cerca de 1.000 vezes mais raro, segundo análise da Electrek publicada em 27 de abril de 2026. Mais grave: as reservas comercialmente exploráveis de lítio estão concentradas em poucos países — Chile, Austrália, Argentina, China — o que cria pontos de estrangulamento geopolítico que petroquímica nenhuma do século 20 enfrentou em escala equivalente.
Surgiram empresas dedicadas. A britânica Faradion, fundada em 2011, foi pioneira ocidental — adquirida em 2021 pela indiana Reliance New Energy Solar. A francesa Tiamat, a sueca Northvolt (encerrada em 2024), a americana Natron Energy. Na China, a HiNa Battery, vinculada à Academia Chinesa de Ciências, e em paralelo a CATL, que começou pesquisa em 2016 com investimento de cerca de 10 bilhões de yuans renminbi (RMB) em testes de quase 300 mil células protótipo, conforme comunicado oficial da empresa publicado em 5 de fevereiro de 2026.
Julho de 2021: CATL anuncia a primeira geração
O primeiro grande sinal industrial veio em julho de 2021, quando a CATL apresentou ao mundo sua bateria de íon-sódio de primeira geração — densidade energética de 160 Wh/kg na célula, um conceito de pacote "AB" combinando células de sódio e de lítio para gerenciar trade-offs. Faltava ainda a maturidade industrial. Conforme análise publicada pelo portal especializado ESS-News em 20 de abril de 2026, a CATL passou os anos seguintes resolvendo quatro gargalos específicos de manufatura: controle extremo de umidade, gases gerados durante a formação do hard carbon, adesão da folha de alumínio e sistemas de ânodo auto-formados.
Em 21 de abril de 2025, no Super Tech Day da CATL em Ningde, foi anunciada a marca Naxtra, descrita pela própria empresa em comunicado oficial como "a primeira bateria de íon-sódio em produção em massa do mundo". Densidade energética de até 175 Wh/kg, autonomia de 400 a 500 km na configuração de veículo de passageiros, operação no intervalo de -40°C a +70°C, e — talvez o mais relevante — capacidade de manter mais de 90% de potência a -40°C, segundo especificação técnica da companhia.
Fevereiro de 2026: o primeiro carro
Em 5 de fevereiro de 2026, em Yakeshi, Mongólia Interior — região que regularmente registra temperaturas abaixo de -30°C nos invernos — a CATL e a Changan Automobile apresentaram conjuntamente o que descreveram como "o primeiro veículo de passageiros do mundo em produção em massa equipado com baterias de íon-sódio". O modelo, denominado Changan Nevo A06, foi anunciado para chegar ao mercado até meados de 2026, conforme comunicado oficial da CATL.
O argumento principal não foi densidade energética — onde o íon-lítio LFP ainda mantém vantagem moderada — mas comportamento em frio. A nota da CATL afirma que a célula Naxtra entrega quase o triplo da potência de descarga de uma bateria LFP equivalente a -30°C. Em mercados como norte da China, Sibéria, Escandinávia e Canadá, isso resolve o ponto fraco mais visível do carro elétrico atual.
Abril de 2026: o contrato que muda a escala
O sódio chegou ao armazenamento estacionário, segmento de aplicação principal no Brasil, em 2026. Em 1º de abril de 2026, no ESIE 2026 (Energy Storage International Expo) em Pequim, a CATL apresentou a primeira plataforma de células de íon-sódio especificamente dedicada a BESS — usando o mesmo formato físico (587 Ah) das células de íon-lítio existentes da empresa. A escolha não é cosmética: ela permite que integradores de armazenamento como HyperStrong encaixem células de sódio em sistemas projetados para lítio, sem refazer linhas de manufatura ou redesenhar racks.
Em 27 de abril de 2026, conforme reportagem do portal Electrek publicada na mesma data, a CATL anunciou contrato de fornecimento de 60 GWh de células de íon-sódio à HyperStrong, integradora chinesa de armazenamento, ao longo de três anos. O número, isoladamente, é histórico — equivale a aproximadamente metade de todo o volume de células de armazenamento que a CATL embarcou em 2025. Para uma química considerada pré-comercial até 2024, a transição em 18 meses foi singular.
| Marco | Data | Significado |
|---|---|---|
| NaCoO₂ descrito em literatura | 1979–1982 | Cátodo análogo ao LiCoO₂ proposto |
| Sony comercializa íon-lítio (Handycam) | 1991 | Sódio é abandonado pela indústria |
| Hard carbon como ânodo de sódio | 2000 | Resolve gargalo crítico |
| Faradion fundada (UK) | 2011 | Primeira empresa ocidental dedicada |
| HiNa Battery fundada (China) | 2017 | Spin-off da Academia Chinesa de Ciências |
| CATL anuncia 1ª geração íon-sódio | jul/2021 | 160 Wh/kg, conceito AB pack |
| Lançamento da marca Naxtra | 21/abr/2025 | 175 Wh/kg, produção em massa iniciada |
| Changan Nevo A06 (1º carro a sódio) | 5/fev/2026 | Primeiro EV comercial mundial |
| Plataforma BESS íon-sódio (ESIE 2026) | 1/abr/2026 | Compatibilidade com formato 587 Ah de lítio |
| Contrato CATL × HyperStrong (60 GWh) | 27/abr/2026 | Maior compromisso comercial em sódio do mundo |
O que isso significa para o Brasil
O sódio-íon não chega a tempo de ser tecnologia dominante no LRCAP de 2026 – Armazenamento. O leilão, segundo cronograma da Portaria MME nº 878/2025, prevê início de suprimento em 1º de agosto de 2028 — janela em que o íon-lítio LFP segue dominante em qualquer fornecedor sério. Mas o sódio muda a equação a partir do segundo certame e dos próximos.
Três motivos. Primeiro, a economia da abundância. O Brasil tem uma das maiores reservas mundiais de barrilha (carbonato de sódio natural) entre soluções salinas no Nordeste e na bacia do Recôncavo. Lítio nacional é restrito ao "Vale do Lítio" em Minas Gerais, onde a Sigma Lithium e a CBL operam reservas modestas em escala global. A integração local com sódio é estruturalmente mais viável.
Segundo, a operação em frio. O Sul do Brasil enfrenta temperaturas que, em invernos atípicos, descem abaixo de zero — não a níveis siberianos, mas o suficiente para degradar performance de íon-lítio. Sódio entrega, conforme especificação da CATL Naxtra, mais de 90% de capacidade retida a -40°C. Para data centers em Curitiba ou para sistemas isolados na Patagônia argentina (mercado que players brasileiros começam a olhar), a química muda.
Terceiro, e talvez mais importante, o ciclo geopolítico. O lítio brasileiro, ainda em fase pré-industrial, exporta para China em forma bruta. O sódio rompe parte dessa lógica — o material ativo principal pode ser sintetizado a partir de barrilha local, com processo industrial menos complexo. Em discussões sobre conteúdo local no LRCAP-Armazenamento — tema levantado pelo pesquisador André Tokarski (Unialfa/Ineep) em artigo publicado pelo portal Eixos em 19 de março de 2026 — o sódio é o vetor mais óbvio para política industrial efetiva.
O que a história de quarenta anos no limbo ensina
O que torna a saga do sódio interessante não é a química nem a geopolítica isoladamente. É o ritmo. Entre o paper de Goodenough sobre NaCoO₂ em 1980 e a primeira venda comercial de uma bateria de sódio em escala (Changan Nevo A06, em meados de 2026), passaram-se 46 anos. Os primeiros 25, no escuro. Os 15 seguintes, em laboratório acadêmico e pequenas startups. Os últimos 5, em corrida industrial.
Para o setor brasileiro de armazenamento, que neste momento debate acirradamente o desenho do primeiro leilão de baterias, o sódio é um lembrete técnico e um lembrete temporal. Técnico, porque a química do BESS de 2030 muito provavelmente não será a mesma do BESS de 2026 — e contratos de dez anos precisam acomodar essa transição. Temporal, porque tecnologias que parecem "disruptivas" em manchete não chegam por revolução, mas por séculos longos de pesquisa pacientemente financiada quando o mercado dizia que não havia mercado.
Goodenough morreu em junho de 2023, aos 100 anos. Não viu a Naxtra ser lançada. Viu, ainda jovem para sua idade, o cátodo dele alimentar todo o mundo. Talvez tivesse achado natural que o cátodo gêmeo, abandonado em sua época, voltasse a ser relevante 45 anos depois. Em ciência, o tempo não corre como em mercado. Em mercado, raramente alguém escuta.
Fontes consultadas:
- Mauger, Alain & Julien, Christian M. — "State-of-the-Art Electrode Materials for Sodium-Ion Batteries", Materials, 5 de agosto de 2020 (DOI 10.3390/ma13163453)
- Royal Society of Chemistry — Chemical Society Reviews, "Sodium-ion batteries: present and future" (2017, DOI 10.1039/C6CS00776G)
- Wikipédia — verbete "Sodium-ion battery" (atualizado em maio de 2026)
- CATL — comunicado oficial "Naxtra Battery Breakthrough & Dual-Power Architecture" (21 de abril de 2025)
- CATL — comunicado oficial sobre Changan Nevo A06 (5 de fevereiro de 2026, Yakeshi, Mongólia Interior)
- ESS-News — "A closer look at CATL's new sodium-ion battery" (20 de abril de 2026)
- Electrek — "CATL says sodium batteries are mainstream-ready, signs massive 60 GWh deal" (27 de abril de 2026)
- Energy-Storage.News — "CATL-HyperStrong deal: a threshold crossed, but 'not a silver bullet'" (abril de 2026)
- Charged EVs — "CATL to deploy sodium-ion EV batteries at commercial scale in 2026" (5 de janeiro de 2026)
- Battery-Tech Network — "CATL to Deploy Sodium-Ion Batteries at Scale in 2026" (29 de dezembro de 2025)
- Eixos — "Potência comprada, tecnologia importada" (19 de março de 2026)
- Portaria MME nº 878/2025
Este artigo é uma análise jornalística do BrasilBESS baseada em fontes públicas. Correções, esclarecimentos ou manifestações das partes mencionadas podem ser enviados ao portal para análise e publicação em caráter complementar.
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