LRCAP 2026: Baterias BESS Podem Mudar o Jogo Energético
Redação Brasil BESS
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Introdução
O Brasil se prepara para um marco no setor elétrico: a primeira contratação de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS, na sigla em inglês) no modelo de reserva de capacidade. O Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) de 2026 não é um certame qualquer. Ele representa a tentativa do governo federal de garantir que o país tenha potência suficiente para atender à demanda nos horários de ponta — e as baterias surgem como candidatas a protagonizar essa transformação.
A sequência de eventos que antecede os leilões de março e o previsto certame de baterias em abril (ou possivelmente até junho) expôs tensões entre o Ministério de Minas e Energia (MME), agentes do mercado, investidores e associações setoriais. A polêmica em torno dos preços-teto iniciais, a revisão emergencial dos valores e as incertezas regulatórias sobre a chamada "tarifa dupla" para baterias compõem um cenário que mescla urgência técnica com complexidade política.
Do lado dos números, os dados são eloquentes. O Plano Decenal de Expansão da Energia (PDE) projeta um déficit de potência de 55 GW até 2034, segundo a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE), que cita cálculos baseados no mesmo programa computacional utilizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Nesse horizonte, a entidade estima que o BESS poderia atender entre 9 GW e 10 GW da necessidade total (MegaWhat, 18/02/2026). É um mercado potencial bilionário.
Enquanto isso, a indústria se movimenta. A WEG anunciou a construção de uma fábrica de BESS em Itajaí/SC, com capacidade de até 2 GWh/ano e operação prevista para o segundo semestre de 2027 (WEG, 04/02/2026). A Eneva, uma das favoritas nos leilões térmicos, declarou esperar "grande competição" após a revisão dos preços-teto (MegaWhat, 13/02/2026). E o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás Natural e Biocombustíveis (IBP) alertou para o risco à segurança energética caso os leilões não ocorram (Cenário Energia, 19/02/2026).
O que é o LRCAP e por que importa
O LRCAP — Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência — é um mecanismo do setor elétrico brasileiro criado para contratar potência disponível, e não energia em si. A diferença é fundamental: enquanto leilões tradicionais contratam megawatts médios (MWm) de energia a ser entregue ao longo do tempo, o LRCAP remunera usinas pela capacidade de estarem prontas para gerar quando o sistema precisar — especialmente nos horários de ponta e em períodos de estresse do sistema.
Essa lógica foi estruturada após o reconhecimento, por parte do planejamento energético nacional, de que a crescente participação de fontes renováveis intermitentes — eólica e solar — exige um complemento de potência despachável para garantir a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN). Térmicas a gás, carvão, óleo e hidrelétricas com capacidade de ampliação são as fontes tradicionais habilitadas nesses certames.
O primeiro LRCAP foi realizado em 2021 pela ANEEL, e o modelo serviu de base para os certames de 2026, com adaptações (ANEEL, 10/02/2026). A novidade agora é a inclusão de baterias: pela primeira vez, o MME sinalizou a intenção de realizar um LRCAP específico para sistemas de armazenamento em baterias eletroquímicas, abrindo um novo capítulo na política energética nacional.
A importância do LRCAP vai além da segurança de suprimento. Ele define, na prática, quais tecnologias receberão contratos de longo prazo garantidos pelo governo, e a que preço. A decisão de incluir (ou não) baterias nesse modelo, e sob que condições, terá implicações profundas para a competitividade tarifária, a atração de investimentos e a configuração da matriz elétrica brasileira na próxima década.
Cronograma atualizado: o que está confirmado e o que falta
Confirmado: 2º e 3º LRCAP em março de 2026
A ANEEL aprovou, em 10 de fevereiro de 2026, os editais de dois Leilões de Reserva de Capacidade para março (ANEEL, 10/02/2026):
- 2º LRCAP — contratação de hidrelétricas (UHE) e termelétricas (UTE) a gás natural e carvão mineral. Previsto para 18 de março de 2026. Os leilões serão realizados em sete rodadas, cada uma correspondente ao ano de entrada de suprimento, com início entre 2026 e 2031.
- 3º LRCAP — contratação de termelétricas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel. Previsto para 20 de março de 2026.
Para o 2º LRCAP, foram cadastrados 330 projetos, totalizando 120.386 MW — sendo 311 térmicas a gás natural, 3 térmicas a carvão e 16 ampliações de hidrelétricas. O 3º LRCAP registrou 38 projetos, reunindo 5.890 MW — 18 termelétricas a óleo e 20 a biodiesel (ANEEL, 10/02/2026).
Em 13 de fevereiro, a ANEEL realizou reunião pública extraordinária para aprovar a revisão dos preços-teto dos editais, após comunicação do MME sobre a necessidade de atualização dos valores (ANEEL, 13/02/2026).
Pendente: Leilão de baterias BESS
O leilão específico de baterias é o capítulo ainda em aberto. O MME submeteu à Consulta Pública nº 202/2025, encerrada em 1º de dezembro de 2025, uma minuta de portaria com diretrizes e sistemática para o LRCAP 2026 – Armazenamento em Baterias (Demarest, 05/12/2025; Canal Solar, 16/01/2026). A minuta previa:
- Leilão em abril de 2026
- Início de suprimento: 1º de agosto de 2028
- Prazo contratual: 10 anos
- Porte mínimo: 30 MW (segundo Lux Energia, 01/02/2026)
No entanto, até a data de publicação deste artigo (22 de fevereiro de 2026), a portaria com as diretrizes definitivas ainda não foi publicada. Na última semana, o ministro Alexandre Silveira indicou que o certame pode acontecer "até junho", embora a previsão original fosse abril (MegaWhat, 18/02/2026).
"A gente está falando desse leilão há mais de um ano, ele foi postergado muitas vezes. É uma pena, porque as baterias já poderiam estar [operando] hoje, ela entra no sistema muito rapidamente", disse Fernando Elias, diretor de relações institucionais da Casa dos Ventos, ao portal MegaWhat (18/02/2026).
A indefinição preocupa o setor. A ausência da portaria impede que a ANEEL elabore o edital, que a EPE habilite os projetos e que investidores finalizem suas estratégias de participação. Cada mês de atraso é um mês a menos para viabilizar os projetos dentro do prazo de início de suprimento em 2028.
Preços-teto: a polêmica e a revisão
Os preços iniciais que revoltaram o mercado
Em 10 de fevereiro de 2026, junto com a aprovação dos editais, a ANEEL divulgou os preços-teto estabelecidos pelo MME via Ofício 29/2026/SE-MME. Os valores geraram uma reação imediata e negativa do mercado (Eixos, 10/02/2026):
- Térmicas existentes (gás/carvão) 2026-2027: R$ 1.120.000/MW.ano
- Térmicas novas (gás) 2028-2031: R$ 1.600.000/MW.ano
- Hidrelétricas 2030-2031: R$ 1.400.000/MW.ano
- Térmicas a óleo/biodiesel (3º LRCAP) 2026-2027: R$ 920.000/MW.ano
Os agentes do setor consideraram os valores insuficientes para cobrir os custos reais de disponibilidade de potência. Fontes que se preparavam para participar do leilão relataram ao portal Eixos que os preços estavam "desconectados da realidade do mercado", agravados pelo cenário global de alta nos custos de equipamentos — como turbinas — e pela pressão dos investimentos em data centers (Eixos, 10/02/2026).
As ações da Eneva, uma das principais candidatas ao leilão, chegaram a cair quase 20% no intraday do dia 10 (Eixos, 13/02/2026). No dia seguinte, o ministro Silveira se comprometeu publicamente a "corrigir" os valores (Eixos, 11/02/2026).
A revisão: aumentos de até 101%
Em 13 de fevereiro de 2026, o MME publicou o Ofício 35/2026/SE-MME com novos preços-teto, prontamente aprovados pela ANEEL em reunião extraordinária no mesmo dia. Os novos valores, conforme tabela oficial da ANEEL (13/02/2026):
2º LRCAP (gás natural, carvão e hidrelétricas):
| Produto | Preço anterior (R$/MW.ano) | Novo preço (R$/MW.ano) | Variação | |---|---|---|---| | Térmicas existentes 2026-2027 | 1.120.000 | 2.250.000 | +101% | | Térmicas novas 2028-2031 | 1.600.000 | 2.900.000 | +81% | | Térmicas existentes 2028-2031 | 1.120.000 | 2.250.000 | +101% | | Hidrelétricas 2030-2031 | 1.400.000 | 1.400.000 | mantido |
3º LRCAP (óleo e biodiesel):
| Produto | Preço anterior (R$/MW.ano) | Novo preço (R$/MW.ano) | Variação | |---|---|---|---| | Térmicas 2026-2027 | 920.000 | 1.600.000 | +74% | | Térmicas 2030 | 990.000 | 1.750.000 | +77% |
O MME justificou a revisão alegando que não atualizar os parâmetros "poderia gerar distorções, reduzir a atratividade do certame ou até comprometer seu resultado" (MME, 13/02/2026, conforme Eixos). A pasta afirmou que os ajustes incorporaram "evidências recentes do cenário internacional, marcadas por aumento de custos de capital, equipamentos e financiamento" e que a revisão se tratou de um "refinamento técnico na estrutura de custos, sem alteração da metodologia central".
O mercado reagiu positivamente. As ações da Eneva se recuperaram, e analistas do Bradesco BBI reafirmaram preço-alvo de R$ 26 por ação ao fim de 2026 (MegaWhat, 13/02/2026).
O ponto cego: hidrelétricas ficaram de fora
Cabe notar que o preço-teto das hidrelétricas foi mantido em R$ 1.400.000/MW.ano, sem reajuste. Isso coloca as hidrelétricas em desvantagem relativa, mas com um teto que o mercado aparentemente considerou mais próximo da realidade — ou ao menos não gerou a mesma reação de protesto verificada no segmento térmico.
Baterias BESS: a oportunidade e os entraves
O caso econômico: custos menores, zero variável
O argumento central dos defensores das baterias no LRCAP é econômico. Com a revisão dos preços-teto para térmicas, a diferença de custo entre BESS e geração convencional ficou mais evidente.
Segundo cálculos da ABSAE, um sistema BESS pode custar entre R$ 1,2 milhão/MW.ano e R$ 1,7 milhão/MW.ano — valores significativamente abaixo dos preços-teto revisados para térmicas (R$ 2,25M a R$ 2,9M/MW.ano). A entidade estima que baterias podem oferecer potência a custos equivalentes a cerca de 20% dos preços-teto para térmicas no LRCAP (MegaWhat, 18/02/2026; Agência iNFRA, 19/02/2026).
A Casa dos Ventos, que se prepara para entrar no segmento de baterias, trabalha com números ainda mais competitivos: receita fixa entre R$ 1,05 milhão/MW.ano e R$ 1,4 milhão/MW.ano, segundo Fernando Elias (Agência iNFRA, 19/02/2026; MegaWhat, 18/02/2026). A empresa considera que o custo da tecnologia BESS caiu "abruptamente" nos últimos dois anos.
A ABSAE calcula que a contratação de 2 GW de BESS poderia gerar uma economia anual de cerca de R$ 3,2 bilhões em encargos para o consumidor, em comparação com a contratação equivalente de térmicas (MegaWhat, 18/02/2026).
Um diferencial estrutural das baterias é a ausência de custo variável unitário (CVU). Térmicas recebem uma parcela fixa (a receita de disponibilidade) mais uma parcela variável a cada acionamento, o que onera adicionalmente o consumidor. Baterias, por outro lado, teriam apenas a receita fixa, e eventuais ganhos de arbitragem no preço da energia seriam revertidos em favor dos usuários do sistema, conforme destacado em nota conjunta da ABSOLAR e ABSAE (Canal Solar, 19/02/2026).
A demanda: 2 GW ou 5 GW?
O dimensionamento do primeiro leilão de baterias é alvo de debate. O ministro Silveira declarou que o leilão deve contratar cerca de 2 GW (MegaWhat, 18/02/2026, citando declaração anterior do ministro). A ABSAE concorda com esse número como meta para o primeiro certame, considerando-o "coerente" diante do déficit total projetado.
Já a Casa dos Ventos avalia que a demanda ideal seria de no mínimo 5 GW. "Tem que ser uma solução que traga uma efetividade. Contratar 1 GW ou 2 GW ajuda, mas tem baixa efetividade", afirmou Fernando Elias ao MegaWhat (18/02/2026).
O presidente da ABSAE, Markus Vlasits, colocou em perspectiva: o PDE projeta um déficit de 55 GW até 2034, que será atendido por diversas fontes. "Quando a gente roda o mesmo programa computacional que a EPE usou, a gente chega, com base em critérios econômicos e técnicos, numa participação de BESS de pelo menos 9 GW a 10 GW. Então o primeiro leilão de 2 GW faz total sentido — você não vai contratar todas as 9 GW num único certame, seria exagerado" (MegaWhat, 18/02/2026).
Os entraves regulatórios
Apesar da competitividade aparente, o setor de baterias enfrenta entraves regulatórios que podem minar a viabilidade econômica dos projetos. Os principais são:
1. A "tarifa dupla"
O entrave mais mencionado é a chamada "tarifa dupla" de uso do sistema de transmissão (TUST). Sob a regulação vigente, os sistemas de baterias pagariam pelo uso do fio como consumidores no momento em que armazenam energia (carregamento) e como geradores quando injetam energia na rede (descarga). Segundo avaliações técnicas da ANEEL, essa cobrança deve permanecer mesmo após a sanção da Lei nº 15.269/2025 (MegaWhat, 13/02/2026).
O setor considera essa cobrança inédita no mundo. "A gente não precisa criar mais uma jabuticaba no nosso setor, basta seguir a melhor experiência internacional", disse Fernando Elias, da Casa dos Ventos (MegaWhat, 18/02/2026).
"Se essa regra for mantida, os agentes vão ter que incorporar isso na sua receita fixa e consequentemente os projetos ficarão mais caros do que o necessário", afirmou Markus Vlasits, da ABSAE (MegaWhat, 18/02/2026).
O presidente da ABSAE argumenta que, tendo sido as baterias enquadradas pela ANEEL como geradores, "o mais lógico seria ele também contratar um MUST [Montante de Uso do Sistema de Transmissão] e pagar a tarifa de gerador". "A gente não quer uma isenção, a questão é qual é uma tarifa justa, tendo em vista que você presta um serviço para o sistema elétrico", completou (MegaWhat, 18/02/2026).
2. Alocação de custos: quem paga pela expansão das baterias?
A Lei nº 15.269/2025 determinou que o custo da reserva de capacidade, no caso de baterias, deve ser custeado pelos geradores — e não pelos consumidores, como acontece com as térmicas contratadas no LRCAP convencional. Essa previsão gerou protestos de ambos os lados.
"Os geradores já estão se organizando para judicializar essa medida", disse Elias, da Casa dos Ventos (MegaWhat, 18/02/2026).
Vlasits, da ABSAE, considerou a determinação um "equívoco": "O BESS gera utilidade tanto para consumidores como para geradores. É equivocado você colocar em um grupo apenas. O correto seria fazer da mesma forma como está sendo feito com serviços ancilares, onde o custo é rateado entre consumidores e geradores" (MegaWhat, 18/02/2026).
O presidente da ABSAE apontou ainda a falta de clareza sobre quais geradores arcariam com o encargo: "Vai ser gerador novo ou gerador existente? Vai ser todo gerador ou apenas aquele gerador que não atende a certos requisitos? Se você ler atentamente, lá diz que todo gerador que não atender requisitos de flexibilidade e despachabilidade deveria custear isso. Significa que Angra ou uma térmica sem flexibilidade também deveriam pagar isso?" (MegaWhat, 18/02/2026).
3. Encargo de potência sem regulamentação
O Encargo de Potência para Reserva de Capacidade (ERCap) ainda carece de regulamentação definitiva. Em decisão tomada durante a aprovação dos editais, a ANEEL orientou que os agentes não considerem o encargo na formulação de seus lances nos LRCAPs, buscando reduzir incertezas regulatórias e evitar distorções competitivas nos certames (Cenário Energia, 10/02/2026).
4. Receita fixa sem parcela variável
Diferentemente das térmicas — que recebem uma parcela fixa pela disponibilidade e uma parcela variável quando são efetivamente acionadas —, as baterias no LRCAP teriam apenas receita fixa. A parcela variável é um componente significativo da remuneração das térmicas e sua ausência altera fundamentalmente a equação econômica dos projetos de BESS.
Por outro lado, a ABSOLAR e a ABSAE argumentam que essa estrutura também beneficia o consumidor, já que "o armazenamento terá receita variável nula e a receita da arbitragem do preço da energia será revertida em favor dos usuários" (Canal Solar, 19/02/2026).
5. Ausência de isonomia tributária e financeira
As associações do setor — ABSOLAR e ABSAE — reivindicam condições isonômicas de contratação. Especificamente, pedem que os projetos de BESS tenham acesso ao REIDI (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura), possam emitir debêntures incentivadas e obtenham os mesmos prazos contratuais disponíveis para as demais tecnologias. Sem esses instrumentos, argumentam, a comparação de custos entre BESS e térmicas fica distorcida (Canal Solar, 19/02/2026; MegaWhat, 18/02/2026).
Os players: quem se posiciona no mercado de BESS
WEG: fábrica de baterias em Santa Catarina
A WEG anunciou, em 4 de fevereiro de 2026, a construção de uma nova fábrica de sistemas BESS em Itajaí/SC, com investimento de R$ 280 milhões — parcialmente financiados pelo BNDES. A unidade ampliará a capacidade produtiva da empresa para até 2 GWh por ano, equivalente a cerca de 400 sistemas de 5 MWh. As obras devem ser concluídas no segundo semestre de 2027, e a planta será a mais moderna do país no segmento, com alto nível de automação (WEG, 04/02/2026; O Globo, 04/02/2026; InfoMoney, 04/02/2026).
O timing não é coincidência: a fábrica estará operacional pouco antes do início de suprimento previsto para os contratos de baterias no LRCAP (agosto de 2028).
Eneva: de favorita nas térmicas a observadora atenta
A Eneva, dona de um dos maiores parques de geração a gás natural do país, foi uma das empresas mais afetadas pela montanha-russa dos preços-teto. Após a revisão, a companhia declarou esperar "grande competição" no leilão, e analistas do mercado financeiro reajustaram suas projeções positivamente (MegaWhat, 13/02/2026). A empresa é uma das principais candidatas ao 2º LRCAP, ao lado da Petrobras e da Âmbar Energia (Eixos, 10/02/2026).
IBP: alerta para segurança energética
O Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás Natural e Biocombustíveis (IBP) manifestou posicionamento favorável à realização do LRCAP em 18 de março de 2026, defendendo o certame como instrumento essencial para a segurança energética. A entidade alertou que a não realização do leilão representaria risco ao SIN e que os preços-teto inicialmente apresentados "não permitiriam um leilão de reserva de capacidade adequado" (Cenário Energia, 19/02/2026; Eixos, 13/02/2026).
Casa dos Ventos e ABSAE: a voz das baterias
A Casa dos Ventos, tradicionalmente associada a energia eólica, posiciona-se como uma das empresas que preparam entrada no segmento de baterias. Junto com a ABSAE (presidida por Markus Vlasits) e a ABSOLAR, essas entidades têm liderado o advocacy pela inclusão competitiva das baterias no LRCAP, publicando estimativas de custo, notas técnicas e manifestações públicas sobre a necessidade de isonomia regulatória.
O que esperar a partir de agora
O cenário para as próximas semanas e meses envolve múltiplas frentes:
Março de 2026: os leilões térmicos e hidrelétricos
Os leilões de 18 e 20 de março seguem confirmados. Com os preços-teto revisados, o mercado espera competição efetiva, especialmente entre térmicas a gás. Os 330 projetos cadastrados totalizam mais de 120 GW de oferta potencial — uma sobreoferta expressiva em relação à demanda a ser contratada. O resultado desses certames definirá o patamar de preços de referência e poderá influenciar a calibragem do leilão de baterias.
A portaria de baterias: o elefante na sala
O evento mais aguardado pelo setor de armazenamento é a publicação da portaria definitiva com as diretrizes do LRCAP de baterias. Sem ela, nada avança: nem edital, nem habilitação de projetos, nem definição de preço-teto. O ministro Silveira indicou que o certame pode acontecer "até junho", mas não há garantia formal de data (MegaWhat, 18/02/2026).
A cada semana sem portaria, aumenta o risco de que o prazo de início de suprimento em agosto de 2028 se torne inexequível para projetos mais complexos, especialmente aqueles que dependem de nova infraestrutura de transmissão.
Regulamentação pendente: tarifa dupla e encargo de potência
A ANEEL deve avançar na regulamentação do armazenamento de energia, incluindo a definição final sobre a cobrança de TUST (tarifa dupla) e o rateio do ERCap. A agência já abriu consulta pública sobre o tema (Canal Solar, 13/02/2026), e a resolução dessas questões é pré-condição para que investidores precifiquem adequadamente seus projetos.
Conteúdo local e cadeia industrial
A construção da fábrica da WEG em Itajaí sinaliza o início de uma cadeia produtiva doméstica de BESS, mas o setor observa com cautela eventuais exigências de conteúdo local que possam encarecer projetos. A Agência iNFRA reportou (19/02/2026) que a discussão sobre conteúdo local para baterias foi "recebida com cautela pelo setor".
O papel do Judiciário
A previsão da Lei nº 15.269/2025 de que geradores devem custear a expansão de baterias já mobiliza movimentos jurídicos. Elias, da Casa dos Ventos, afirmou que "os geradores já estão se organizando para judicializar essa medida" (MegaWhat, 18/02/2026). Uma judicialização ampla poderia travar investimentos e atrasar a implementação dos projetos contratados.
O horizonte de longo prazo
Se as questões regulatórias forem resolvidas, o potencial é significativo. O presidente da ABSAE, Markus Vlasits, projetou que um primeiro leilão de 2 GW mobilizaria investimentos da ordem de R$ 10 bilhões (Brazil Journal, janeiro/2026). Com um déficit projetado de 55 GW e participação potencial de BESS de 9-10 GW, o Brasil pode se tornar um dos maiores mercados de armazenamento de energia por baterias do mundo — se conseguir resolver suas "jabuticabas" regulatórias a tempo.
Conclusão
O LRCAP 2026 representa uma encruzilhada para o setor elétrico brasileiro. De um lado, a necessidade técnica de potência é incontestável, e os leilões de março avançam com preços revisados e centenas de projetos cadastrados. De outro, a promessa de um leilão inédito de baterias esbarra em uma portaria que não sai, uma tarifa dupla que não existe em nenhum outro lugar do mundo e uma alocação de custos que pode parar no Judiciário.
As baterias BESS oferecem uma proposta de valor clara: potência a custos potencialmente menores que as térmicas, sem emissões, sem custo variável e com implantação rápida. Mas essa proposta só se materializa se o arcabouço regulatório acompanhar a evolução tecnológica. O relógio está correndo. O início de suprimento de agosto de 2028 está a menos de dois anos e meio, e cada mês de indefinição é um mês de oportunidade perdida.
O Brasil tem diante de si a chance de se posicionar na vanguarda global do armazenamento de energia. A questão é se terá a velocidade institucional para aproveitá-la.
Fontes
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ANEEL — Leilões de Reserva de Capacidade de 2026: editais são aprovados pela ANEEL (10/02/2026). Disponível em: gov.br/aneel
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ANEEL — ANEEL aprova novos preços-teto dos editais dos Leilões de Reserva de Capacidade (13/02/2026). Disponível em: gov.br/aneel
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MME — MME publica portaria que traz ajustes nas diretrizes do LRCAP 2026 (janeiro/2026). Disponível em: gov.br/mme
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MegaWhat/UOL — Leilão de baterias pode ter 5 GW, mas trava em tarifa dupla e alocação de custos (18/02/2026). Disponível em: megawhat.uol.com.br
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MegaWhat/UOL — Eneva vê 'grande competição' no leilão com novos preços-teto (13/02/2026). Disponível em: megawhat.uol.com.br
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Canal Solar — Novo preço-teto do LRCAP pode aumentar competitividade das baterias, dizem associações (19/02/2026). Disponível em: canalsolar.com.br
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Eixos — Aneel aprova novos preços-teto do leilão de reserva de capacidade, com reajuste de até 100% (13/02/2026). Disponível em: eixos.com.br
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Eixos — Preços-teto tensionam LRCAP, desenhado para pacificar conflitos (10/02/2026). Disponível em: eixos.com.br
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Cenário Energia — IBP defende realização do LRCAP 2026 e alerta para risco à segurança energética sem leilão (19/02/2026). Disponível em: cenarioenergia.com.br
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Cenário Energia — Aneel define preços-teto para leilões de potência de 2026 e ajusta diretrizes dos LRCAPs (10/02/2026). Disponível em: cenarioenergia.com.br
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WEG — WEG anuncia nova fábrica de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) em Itajaí/SC (04/02/2026). Disponível em: weg.net
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Agência iNFRA — Conteúdo local para baterias é recebido com cautela pelo setor (19/02/2026). Disponível em: agenciainfra.com
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Portal Solar — Reajuste em preços-teto do leilão de reserva de capacidade reforça competitividade das baterias (20/02/2026). Disponível em: portalsolar.com.br
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Broadcast/Estadão — Associações destacam competitividade de baterias após reajuste de preços-teto em leilão (19/02/2026). Disponível em: broadcast.com.br
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XP Investimentos — Radar Energia XP | Fevereiro 2026 (17/02/2026). Disponível em: conteudos.xpi.com.br
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Demarest Advogados — LRCAP 2026 – Armazenamento: MME instaura consulta pública para o primeiro leilão de baterias no Brasil (05/12/2025). Disponível em: demarest.com.br
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Lux Energia — Leilão de BESS no Brasil: o que esperar do primeiro leilão de baterias em 2026 (01/02/2026). Disponível em: luxenergia.com.br
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Brazil Journal — Tesla, WEG e chinesas: a briga de bilhões no leilão de baterias (janeiro/2026). Disponível em: braziljournal.com
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Cescon Barrieu — Consulta Pública MME nº 202/2025: Leilão de Armazenamento em Baterias para o SIN (novembro/2025). Disponível em: cesconbarrieu.com.br
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O Globo — Weg vai construir fábrica de grandes baterias que poderão armazenar energia de fontes renováveis (04/02/2026). Disponível em: oglobo.globo.com
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