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Statkraft recebe primeira autorização da ANEEL para integrar bateria a usina solar: marco regulatório para o BESS no Brasil
ANEEL assina primeira autorização para integrar sistema de armazenamento de 5 MWh em usina solar da Statkraft na Bahia. Marco regulatório para solar + storage no Brasil.
Redação Brasil BESS
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Statkraft recebe primeira autorização da ANEEL para integrar bateria a usina solar: marco regulatório para o BESS no Brasil A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) assinou nesta quinta-feira, 2 de abril de 2026, a primeira autorização para inserção de sistema de armazenamento de energia em baterias (BESS) em uma usina fotovoltaica no Brasil. O projeto é da Statkraft, geradora norueguesa com forte presença no mercado brasileiro de renováveis, e marca um avanço concreto na regulação de sistemas híbridos de geração e armazenamento no país. ## O projeto: 5 MWh de baterias em Uibaí, Bahia A autorização concedida pela ANEEL permite a integração de um sistema de armazenamento de energia em baterias de íon-lítio com capacidade nominal de 5.016 kWh (aproximadamente 5 MWh) e potência instalada total de 1,25 MW à usina fotovoltaica Sol de Brotas 7, localizada no município de Uibaí, na Bahia. O sistema de conversão tem capacidade de 2,3 MW, com tensão de saída do inversor de 0,6 kV. A usina solar integra o complexo Sol de Brotas, que prevê transformar dois empreendimentos eólicos já existentes — Ventos de Santa Eugênia e Morro do Cruzeiro — em parques híbridos. O investimento estimado para implantação do complexo é de R$ 926 milhões. De acordo com informações da ANEEL, o sistema poderá consumir energia tanto da própria usina quanto da rede, embora não esteja autorizado a ligação direta com outras centrais geradoras do complexo. O objetivo declarado é armazenar a energia gerada pelos painéis fotovoltaicos durante o dia e despachar para a rede nos momentos de alta demanda. ## Por que este é um marco? Segundo a superintendente de Concessões, Permissões e Autorizações dos Serviços de Energia Elétrica da ANEEL, Ludimila Lima da Silva, a iniciativa deve contribuir para o aprimoramento da regulação das baterias no setor elétrico. "É um marco da integração entre geração e armazenamento de energia, contribuindo para o aprimoramento do arcabouço regulatório e para a modernização do setor elétrico nacional", comentou. Este é o primeiro caso de autorização oficial para um sistema colocalizado — isto é, instalado junto a uma usina de geração e compartilhando as instalações de conexão à rede básica. A configuração permite que o armazenamento e a injeção de energia na rede ocorram no mesmo ponto de conexão, facilitando a gestão da intermitência da geração solar e aumentando a flexibilidade operacional. ## Contexto regulatório: a longa espera Desde 2022, a ANEEL discute o tema em consultas públicas. Os debates passaram por questões como outorga, acesso e uso da rede, medição, possibilidades de remuneração e impactos na operação do Sistema Interligado Nacional e na formação de preços. Desde então, foram realizados projetos-piloto e iniciativas de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), incluindo a entrada em operação do primeiro sistema de armazenamento por baterias em larga escala no país. Em outubro de 2025, a agência publicou orientações específicas para empreendedores interessados na instalação de sistemas de armazenamento colocalizados em centrais geradoras já outorgadas. Essas orientações tratam o armazenamento colocalizado como uma alteração de características técnicas do empreendimento de geração, o que simplifica o processo regulatório. ## Setor cobra regulação completa Ainda assim, representantes da indústria cobram definições mais claras, com a conclusão da regulação do setor. Em nota, a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) comemorou a autorização, mas destacou que é apenas parte do caminho. "Essa permissão técnica agora precisa ser acompanhada de viabilização econômica real. Para que esse tipo de investimento deixe de ser pontual e se torne um modelo escalável, precisamos da aprovação integral da regulação", afirma Fabio Lima, diretor-executivo da ABSAE. Segundo a entidade, a conclusão da consulta pública 39, de 2022, é hoje o principal passo para destravar esse mercado. "A conclusão da Consulta Pública 39 é o passo essencial para destravar novas fontes de receita, dar previsibilidade econômica aos projetos e permitir uma sinalização mais adequada para o armazenamento no Brasil", defende Lima. ## O que vem a seguir? A autorização da Statkraft abre precedente para outros projetos de solar + storage no Brasil, um modelo que vem ganhando força em mercados globais pela capacidade de aumentar a previsibilidade da geração renovável e reduzir a necessidade de despacho térmico fora da ordem de mérito. Com o primeiro leilão exclusivo de baterias do Brasil previsto para o meio do ano, no formato de Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), o mercado aguarda sinais claros sobre a viabilidade econômica de projetos de armazenamento. A Statkraft já havia antecipado, em outubro de 2025, seu interesse em testar a viabilidade da tecnologia como forma de mitigar restrições de escoamento e aumentar a flexibilidade operacional de ativos solares híbridos. O projeto na Bahia busca aproveitar os cortes de geração no local, fenômeno recorrente em parques solares e eólicos no Nordeste brasileiro. ## Comparação com outros projetos de BESS na Bahia Conforme reportado anteriormente pelo Brasil BESS, a Bahia já concentra outros projetos de armazenamento de grande porte. A transmissora Grande Sertão II, holding administrada pelo BTG Pactual, solicitou à ANEEL autorização para instalar um sistema de armazenamento em baterias de 300 MW e 1.200 MWh na subestação Jussiape, com investimento estimado em R$ 1,21 bilhão. Naquele caso, a bateria substituiria um compensador síncrono previsto nos estudos de expansão do sistema e seria tratada como ativo de transmissão, não de geração. A diferença fundamental é que o projeto da Statkraft é colocalizado com uma usina de geração, enquanto o do BTG é um ativo de rede. ## Próximos passos O sistema de armazenamento da Statkraft vai operar compartilhando os sistemas de medição e faturamento da usina, nos termos aplicáveis aos sistemas de armazenamento colocalizados. A expectativa do mercado é que o projeto entre em operação comercial ainda em 2026, servindo de referência para outros empreendedores que buscam viabilizar modelos semelhantes. Para que o mercado de armazenamento se consolide no Brasil, será necessário que a ANEEL conclua a regulação pendente, especialmente no que diz respeito à remuneração de serviços ancilares, arbitragem energética e participação em mecanismos de capacidade. O primeiro leilão de baterias, previsto para o segundo semestre de 2026, será um teste importante para avaliar o apetite do mercado e a competitividade dos projetos nacionais. --- Fontes: Eixos, MegaWhat, ANEEL
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