Ford cria subsidiária de armazenamento e mira 20 GWh de BESS por ano
A Ford lançou a Ford Energy, subsidiária dedicada a sistemas de armazenamento em baterias, com meta de 20 GWh anuais e investimento de US$ 2 bilhões. Entenda o movimento e o que ele sinaliza para o Brasil.
Redação Brasil BESS
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A Ford oficializou em 11 de maio sua entrada no mercado de armazenamento de energia em larga escala com o lançamento da Ford Energy, uma subsidiária integral que vai fabricar e vender sistemas de armazenamento em baterias (BESS) montados nos Estados Unidos para concessionárias, data centers e grandes clientes industriais. A meta declarada é produzir 20 GWh de capacidade de armazenamento por ano a partir de sua gigafábrica em Kentucky, segundo reportagem do Electrek.
O movimento formaliza uma guinada que vinha sendo construída há meses: a conversão da capacidade ociosa de baterias para veículos elétricos em uma operação voltada ao mercado de storage conectado à rede — segmento aquecido pela demanda de data centers de inteligência artificial e pela expansão das fontes renováveis.
De excedente de baterias de VE a aposta em armazenamento
A Ford Energy não surgiu do nada. Em dezembro de 2025, a montadora já havia anunciado planos de converter suas fábricas de baterias para produzir armazenamento estacionário, depois de constatar que a demanda por baterias de veículos elétricos não absorveria a capacidade instalada. O anúncio veio poucos dias depois de Ford e SK On encerrarem a joint venture BlueOval SK, avaliada em US$ 11,4 bilhões, dividindo as fábricas entre as duas empresas.
A nova subsidiária terá sede em Michigan, mas a base de manufatura fica na planta de Glendale, no Kentucky — a mesma originalmente erguida para baterias de veículos elétricos sob a joint venture. À frente da operação está Lisa Drake, nomeada presidente da Ford Energy em janeiro. De acordo com o portal especializado ESS News, a Ford planeja investir cerca de US$ 2 bilhões nos próximos dois anos para escalar o negócio, com operações que abrangem toda a cadeia de manufatura — da produção de células à montagem de módulos e contêineres.
O produto: o "DC block" baseado em células LFP de 512 Ah
O produto principal da Ford Energy é o DC block, um sistema de armazenamento containerizado, padronizado em formato de 20 pés e construído em torno de células prismáticas de LFP (lítio-ferro-fosfato) de 512 Ah. Ele chega em duas configurações, ambas com 5,45 MWh de capacidade nominal:
| Configuração | Duração | Capacidade nominal | Faixa de tensão |
|---|---|---|---|
| FE-250 | 2 horas | 5,45 MWh | 1.040–1.500 VDC |
| FE-450 | 4 horas | 5,45 MWh | 1.040–1.500 VDC |
Ambas as versões integram gerenciamento térmico por refrigeração líquida e um sistema de gestão de baterias (BMS) proprietário. Segundo o Electrek, o sistema foi projetado para ambientes severos: faixa de operação de -35 °C a +55 °C, proteção contra ingresso IP55, proteção anticorrosiva C5 e operação em altitudes de até 4.000 metros sem perda de desempenho. Cada unidade pesa cerca de 43,5 toneladas e ocupa o footprint de um contêiner padrão de 20 pés. A escolha pela química LFP — dominante no mercado global de armazenamento estacionário — está ligada à maior estabilidade térmica e à vida útil mais longa, requisitos de um produto que a Ford afirma ter sido projetado para 20 anos de desempenho. As primeiras entregas a clientes estão previstas para o fim de 2027.
Um mercado em expansão — e dominado pela Tesla
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A Ford Energy entra em um mercado que a Tesla hoje lidera. A fabricante instalou um recorde de 46,7 GWh de armazenamento em 2025, e seu Megapack 3 — com produção em volume prevista para este ano — terá 5 MWh por unidade e capacidade fabril planejada de 50 GWh ao ano. A meta de 20 GWh da Ford é relevante, mas ainda representa menos da metade da produção planejada pela rival.
Há espaço, porém, para mais de um grande fornecedor. Conforme o Electrek, os Estados Unidos devem adicionar 24 GW de novo armazenamento em escala de concessionária em 2026 — quase o dobro do recorde de 15 GW registrado em 2025 — e projeções do setor apontam para mais de 600 GWh de armazenamento na rede americana até 2030. A demanda de data centers é um vetor especialmente forte: a infraestrutura de inteligência artificial pode responder por 83% das instalações de storage behind-the-meter comercial e industrial até 2030.
A carta do conteúdo nacional
A Ford aposta também no apelo da manufatura doméstica. A empresa destaca que seus sistemas são montados nos EUA, projetados para se qualificar ao crédito fiscal de investimento da Seção 48E e construídos com uma estratégia de cadeia de suprimentos voltada a atender requisitos de conteúdo nacional. No atual ambiente de tensão comercial, esse posicionamento tende a ser um diferencial relevante diante dos fabricantes chineses de BESS — e a credibilidade industrial de uma companhia com mais de 120 anos de manufatura pesa a favor de um entrante recente no setor.
O que isso sinaliza para o Brasil
O caso Ford é mais um sinal de que o armazenamento deixou de ser nicho e se tornou uma corrida industrial global. Para o Brasil, o momento é particularmente sensível: o país estrutura o LRCAP 2026 – Armazenamento, seu primeiro leilão dedicado a sistemas de baterias, conduzido pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela ANEEL. Conforme as diretrizes divulgadas pelo MME, os contratos terão prazo de suprimento de 10 anos, com início previsto para 1º de agosto de 2028.
Enquanto montadoras e gigantes de tecnologia verticalizam a produção de células e contêineres no exterior, o desenho do certame brasileiro ainda enfrenta indefinições regulatórias — da publicação da portaria de diretrizes à discussão sobre a dupla cobrança pelo uso da rede. O contraste é instrutivo: a tecnologia e a capacidade industrial avançam rápido; a velocidade institucional é que define quem captura o valor. Para fornecedores, integradores e investidores de olho no mercado nacional, a mensagem do movimento da Ford é direta — a janela de oportunidade em BESS está se abrindo agora, e a escala está sendo decidida lá fora.
Fontes: Electrek, ESS News / pv magazine, Ministério de Minas e Energia (MME) e ANEEL.
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