Homologação do LRCAP marcada para 21 de maio: auditoria do TCU segue em curso e leilão de baterias continua sem portaria
O TCU aceitou a representação do MPTCU sobre os preços-teto do LRCAP 2026, autorizou inspeção pela AudElétrica e manteve o cronograma. Homologação prevista para 21 de maio. Enquanto isso, o leilão exclusivo de baterias segue sem portaria definitiva.
Redação Brasil BESS
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A homologação dos resultados do Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) de 2026 está marcada para 21 de maio — daqui a duas semanas. Ao mesmo tempo, o Tribunal de Contas da União mantém em curso uma auditoria sobre a definição dos preços-teto do certame, e a Câmara dos Deputados recebeu, na semana passada, um relatório que pede a suspensão do leilão. No meio dessa convergência, o leilão exclusivo de baterias (LRCAP-Armazenamento) — que já se aproxima de meio ano de atraso em relação à previsão original de abril — segue sem portaria normativa definitiva.
Para quem está estruturando projetos de armazenamento no Brasil, o calendário dos próximos 30 dias é provavelmente o mais determinante de 2026. Este artigo resume o que está formalmente em curso, com base em decisões públicas do TCU, manifestações oficiais do MME e cobertura técnica do setor.
O que o TCU formalmente decidiu
A análise do TCU sobre o LRCAP 2026 corre no Processo nº 004.937/2026-0, sob relatoria do ministro Jorge Oliveira. Em sessão plenária realizada em 15 de abril de 2026, o Tribunal:
- Aceitou a representação apresentada pelo Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU), pelo subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado;
- Negou o pedido de cautelar que pediria a suspensão do leilão;
- Autorizou a Unidade de Auditoria Especializada em Energia Elétrica e Nuclear (AudElétrica) a realizar inspeções nos agentes envolvidos para coletar informações necessárias ao acompanhamento do certame.
O ministro Bruno Dantas acompanhou o voto do relator, destacando que a contratação de capacidade era essencial para evitar riscos de apagão. A avaliação do Tribunal foi de que a homologação dos resultados, prevista apenas para 21 de maio, abriria espaço para aprofundar a análise sem comprometer o atendimento energético — leitura confirmada na cobertura da CNN Brasil, Paranoá Energia e do escritório Cescon Barrieu.
O que está sendo apurado
A representação do MPTCU lista quatro pontos centrais que motivaram a abertura formal do processo no TCU:
| Ponto apurado | Descrição |
|---|---|
| Reajuste dos preços-teto | Aumento de até 80% nos preços-teto promovido pelo MME em decisão de 13 de fevereiro de 2026, com janela de revisão de aproximadamente 72 horas |
| Justificativa técnica | Possível ausência de justificativa técnica detalhada para a magnitude do reajuste |
| Competitividade | Indícios de baixa competitividade no certame, com impactos potenciais sobre a modicidade tarifária |
| Geradoras de papel | Possível atuação de empresas que vencem disputas sem capacidade real de executar os projetos contratados |
A AudElétrica já havia sinalizado, em manifestação anterior anexada ao processo, que os indícios de irregularidade no reajuste dos preços-teto justificariam aprofundamento. Em texto enviado ao plenário, a unidade argumentou que a decisão do MME de elevar os valores foi tomada após os preços iniciais ficarem abaixo das expectativas do mercado, com reação imediata na bolsa e insatisfação entre geradores.
O ministro Silveira (MME) declarou em sessão na Câmara dos Deputados que o reajuste foi necessário porque a Petrobras — que classificou como maior interessada no leilão — havia sinalizado que poderia não apresentar lances com os valores originais. Na avaliação do ministro, o risco de não contratar capacidade resultaria em contratações emergenciais ou térmicas merchant no futuro, com custo até três vezes maior para o consumidor (cobertura: Canal Solar).
A camada política: o relatório de Danilo Forte na Câmara
Em 6 de maio de 2026, a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados recebeu um relatório do deputado Danilo Forte (PP-CE) recomendando:
- A suspensão imediata do LRCAP 2026 e a não homologação do certame;
- A abertura de inquérito pela Polícia Federal para apurar possíveis crimes de corrupção passiva e prevaricação na revisão dos preços-teto;
- A abertura de processo no CADE para investigar possível formação de cartel e exercício abusivo de posição dominante;
- A realização de auditoria pela CGU sobre a legalidade dos atos e a atuação dos servidores envolvidos.
O relatório também sugere a oitiva de Daniel Cascalho, secretário de Energia Elétrica do MME; Thiago Prado, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE); e Reinaldo da Cruz Garcia, diretor de Estudos de Energia Elétrica da EPE.
Forte estima impacto superior a R$ 500 bilhões na conta de luz dos brasileiros ao longo da execução dos contratos e cita uma taxa interna de retorno real média de 96% ao ano para os vencedores como evidência de "transferência de renda" dos consumidores. Os números do parlamentar ainda não foram replicados publicamente por análises técnicas independentes, e tanto o MME quanto o TCU operam com metodologias próprias.
A diferença prática entre as duas frentes é clara: o TCU já decidiu manter o leilão e abrir auditoria; o relatório da Câmara é uma peça política que pode ou não ser acolhida pela Comissão e encaminhada formalmente aos órgãos sugeridos. Os movimentos não se cancelam — convivem.
Como o LRCAP rodou em março e o que está sendo homologado
O LRCAP 2026 foi conduzido pela ANEEL em duas etapas, divididas por fontes de geração:
- 2º LRCAP — 18 de março de 2026: contratação de capacidade térmica
- 3º LRCAP — 20 de março de 2026: complemento da contratação
Ao todo, foram contratados aproximadamente 19 GW de capacidade, segundo o levantamento do escritório Cescon Barrieu sobre os resultados consolidados. O volume já está nos contratos firmados e aguarda a homologação formal pela ANEEL para se tornar exigível. A composição majoritária da contratação ficou com térmicas a gás natural e a carvão mineral, com ampliações hidrelétricas como complemento.
E o leilão de baterias?
Aqui está a parte que mais importa para o setor de armazenamento. O LRCAP-Armazenamento — leilão exclusivo para sistemas de armazenamento em baterias — não é o certame realizado em março. É um certame separado, previsto originalmente para abril de 2026, com diretrizes ainda em consulta pública.
Resumo do estado atual:
| Item | Situação em 10/maio/2026 |
|---|---|
| Portaria normativa definitiva | Não publicada |
| Edital | Não publicado |
| Cadastramento de projetos na EPE | Não aberto |
| Definição final de preço-teto | Pendente |
| Compromisso de início de suprimento | Agosto de 2028 (mantido nas minutas) |
| Janela mais provável para o certame | Indicação do ministro Silveira: "até junho" — sem confirmação formal |
A consequência prática é direta: cada semana que passa sem portaria definitiva comprime o lead time disponível para que projetos de baterias consigam atender o compromisso de suprimento em agosto de 2028. Para projetos que dependem de nova infraestrutura de transmissão, o prazo já está apertado.
O que monitorar nos próximos 30 dias
Cinco eventos provavelmente concentram o que importa para o setor:
- A homologação dos resultados do LRCAP de térmicas em 21 de maio, com possíveis ressalvas formais do TCU já com base nos achados da AudElétrica em curso.
- A possível publicação da portaria normativa do LRCAP-Armazenamento, que destrava o cadastramento na EPE e a definição de preço-teto para baterias.
- A reação da Comissão de Minas e Energia da Câmara ao relatório do deputado Danilo Forte — se acolhe formalmente as recomendações ou as encaminha apenas como conhecimento.
- Possíveis ações judiciais pleiteando suspensão da homologação, com base nos mesmos elementos da representação do MPTCU.
- Posicionamentos da ANEEL sobre a tarifa dupla (TUST) e o rateio do ERCAP para sistemas de armazenamento — pontos regulatórios que continuam pendentes e que afetam a viabilidade econômica dos projetos de bateria.
O que isso significa para o setor de baterias
Há duas leituras simultâneas, e ambas são defensáveis.
A leitura conservadora é que a auditoria do TCU sobre o leilão de térmicas pode atrasar ainda mais o cronograma do leilão de baterias, especialmente se o Tribunal exigir revisões metodológicas no preço-teto que sejam aplicáveis também aos certames subsequentes. Nesse cenário, o início de suprimento em agosto de 2028 começa a perder factibilidade para projetos complexos.
A leitura otimista é que o ruído regulatório atual está concentrado em térmicas, não em baterias — e que a portaria do LRCAP-Armazenamento, quando sair, virá com o aprendizado do certame de março já incorporado, possivelmente com preço-teto mais aderente à realidade do mercado e regras mais claras sobre TUST e ERCAP.
A diferença entre os dois cenários depende, em grande parte, do que a AudElétrica reportar e de como o MME responder nas próximas semanas. Quem está estruturando projetos faria bem em acompanhar diariamente o andamento do Processo nº 004.937/2026-0 no TCU.
Fontes consultadas: CNN Brasil, "TCU nega suspensão do leilão de reserva de capacidade de energia" (15/04/2026); XP Investimentos, Radar Energia (04/03/2026); Paranoá Energia, "TCU vê indícios de irregularidades no preço-teto do LRCap" (15/04/2026); Cescon Barrieu, "LRCAP 2026: Resultados, Controvérsias e Análise pelo TCU" (25/03/2026); Canal Solar, "Governo prevê portaria do leilão de baterias em abril e estuda exigência mínima de armazenamento" (12/03/2026); Instituto Internacional Arayara — cobertura do relatório do deputado Danilo Forte na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados (06/05/2026).
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