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Antes do leilão, a fábrica: como os R$ 8 bilhões em BESS estão estruturando a cadeia industrial do armazenamento no Brasil

Antes mesmo de acontecer, o leilão de baterias de dezembro já mira R$ 8 bilhões e mobiliza uma cadeia industrial inteira: WEG em Itajaí, Anodox no Ceará, Brasol com BESS as a Service e R$ 54 bilhões em três programas do BNDES. Mapeamos quem está se posicionando e onde está o gargalo das células.

Redação Brasil BESS

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7 min de leitura
Antes do leilão, a fábrica: como os R$ 8 bilhões em BESS estão estruturando a cadeia industrial do armazenamento no Brasil

O primeiro leilão de baterias do Brasil só acontece em dezembro. Mas o efeito industrial já chegou. Segundo levantamento publicado pelo jornal O Globo em 11 de junho, o certame já mobiliza uma expectativa de R$ 8 bilhões em investimentos e está reorganizando o mercado de armazenamento antes mesmo do primeiro lance — atraindo novas fábricas, financiamento público e empresas estrangeiras. Aqui no BrasilBESS, organizamos quem está se movendo, com qual estratégia, e onde continua o gargalo que nenhum desses anúncios resolve sozinho.

A lógica por trás do movimento é a que vínhamos antecipando: a regra do jogo mudou. As diretrizes da Portaria MME 136/2026, publicadas no início de junho, e a aprovação do marco regulatório do armazenamento pela ANEEL um dia antes criaram, pela primeira vez, um horizonte de contratação em escala — e foi isso que destravou as decisões de investimento que estavam represadas.

A previsibilidade como combustível

Quem traduz bem o mecanismo é o diretor-executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE), Fabio Lima. Para ele, o leilão cria um ambiente mais favorável às decisões de investimento porque entrega o que faltava ao setor: previsibilidade. "A expectativa de contratação em escala naturalmente aumenta o interesse industrial no país", afirmou, acrescentando que o certame tende a posicionar o Brasil como um hub regional de armazenamento na América Latina.

É a diferença entre apostar num mercado que talvez exista e dimensionar uma fábrica para uma demanda contratada por 15 anos. O leilão não cria a demanda do nada — o curtailment de renováveis no Nordeste já a tornava evidente —, mas converte essa demanda difusa em fluxo de receita bancável. E capital industrial responde a fluxo bancável, não a boas intenções.

Quem está se posicionando

O movimento não é de um player só. É uma cadeia se formando em paralelo, com modelos de negócio distintos. Mapeamos os principais anúncios já públicos.

EmpresaMovimentoCapacidade / porteModelo
WEGMaior fábrica de BESS do país, em Itajaí (SC), com R$ 280 mi do BNDESAté 2 GWh/ano; operação prevista para o fim de 2027Fabricação e integração nacional
BYDAté R$ 500 mi para produção de BESS; Manaus ou nova unidade300–400 empregos diretos na fase inicialIntegração com base industrial instalada
Anodox (Suécia)Primeira fábrica no Brasil, no Ceará; financiada na mesma chamada do BNDESAté 2 GWh/ano; início em 2028; 590 empregos diretos e indiretosMontagem modular com sócio chinês, avanço gradual na cadeia
Brasol (BlackRock + Siemens)BESS as a Service para indústria e comércio; pretende disputar o leilãoSistemas prontos da China + montagem final localLeasing: a empresa assume o investimento e o risco

Cada linha dessa tabela conta uma estratégia diferente de entrada. Vale destrinchar as duas pontas.

WEG: a aposta na fabricação nacional

A unidade de Itajaí é, hoje, o projeto-âncora da nacionalização. Com a conclusão das obras prevista para o fim de 2027, a capacidade produtiva pode chegar a 2 GWh por ano, voltada a aplicações comerciais, industriais e de grande porte — incluindo usinas renováveis e infraestrutura de rede. O vice-presidente de Automação e Sistemas da WEG, Manfred Peter Johann, foi direto sobre o limite atual: a fabricação de BESS no Brasil ainda depende de componentes importados da China, sobretudo as células de bateria, apontadas como o elemento central dos sistemas. A empresa avalia uma nacionalização gradual dessa cadeia. "O armazenamento deve se tornar cada vez mais estratégico para o setor elétrico brasileiro ao longo dos próximos anos", disse Johann.

Brasol: o armazenamento como serviço

No outro extremo do espectro está o modelo BESS as a Service da Brasol — empresa controlada pelo fundo americano BlackRock e pela Siemens. Em vez de vender o ativo, a companhia assume todo o investimento (desenvolvimento, implantação, operação e manutenção) e cobra do cliente uma mensalidade por contrato de leasing. "O cliente não precisa investir e nós assumimos todos os riscos", resume o diretor da unidade de BESS da Brasol, Diogo Zaverucha. A empresa também pretende disputar o leilão de dezembro, e enxerga no certame um efeito de barateamento de toda a cadeia: "Com o leilão, toda a cadeia nacional se estrutura, o produto fica mais barato e o interesse pela solução aumenta."

Esse modelo é particularmente relevante para o leitor do segmento C&I e de eficiência energética: ele desloca o BESS de uma decisão de CAPEX para uma de OPEX, removendo a barreira do investimento inicial — exatamente a lógica de contratos de longo prazo que já move projetos de eficiência no Brasil.

O dinheiro público por trás: R$ 54 bilhões em três programas

Nada disso aconteceria na velocidade atual sem o BNDES. O banco financiou tanto a WEG quanto a Anodox na mesma chamada pública, voltada a planos de negócio ligados à transformação de minerais estratégicos para a transição energética. E há margem para muito mais: segundo o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do banco, José Luis Gordon, o BNDES conta com três programas distintos que somam R$ 54 bilhões em orçamento, acessíveis a projetos ligados a armazenamento. "As empresas também vão poder financiar os investimentos do leilão de baterias", afirmou Gordon.

Esse é o detalhe que costuma passar batido no noticiário: o financiamento público não está só bancando fábricas — está desenhado para bancar também os projetos vencedores do leilão. É um alinhamento deliberado entre política industrial (fabricar no Brasil) e política energética (contratar potência de reserva), com o crédito como ponte entre as duas.

O gargalo que o dinheiro ainda não resolve

Aqui é preciso honestidade, e não entusiasmo. Praticamente todos os anúncios atuais — incluindo os mais robustos — partem da montagem modular e integração de sistemas, com a célula de bateria importada. A Anodox é explícita: começa pela montagem em parceria com um sócio chinês e prevê avançar "progressivamente na cadeia", incorporando a montagem de células e, no médio e longo prazo, o processamento de minerais estratégicos. Nas palavras do CEO da Anodox no Brasil, Cristiano Braga, "a fase inicial ancora o negócio, estabelece a marca no país e cria o fluxo de receita que sustenta os investimentos seguintes".

Ou seja: o Brasil está, neste momento, construindo a etapa de menor valor agregado da cadeia. Montar sistema é diferente de fabricar célula, que por sua vez é diferente de processar o mineral. A pergunta de fundo — se o país sobe na cadeia ou se cristaliza como montador final de células chinesas — não será respondida pelo leilão de dezembro. Será respondida pelo que essas empresas fizerem com a receita que o leilão gerar. O desenho de conteúdo nacional da Portaria 136, ancorado no Sistema CFI do BNDES, é a alavanca regulatória que tenta empurrar essa subida. Resta ver até onde empurra.

A urgência por trás do timing

Para Luiza Masseno Leal, pesquisadora do Grupo de Estudos do Setor Elétrico do Instituto de Economia da UFRJ, a pressa tem fundamento técnico. "A urgência de acelerar a integração de baterias ao Sistema Interligado Nacional é real e crescente", afirma. Ela lembra que Estados Unidos, Alemanha e Chile já usam baterias para ampliar a flexibilidade de suas redes, e situa o Brasil no retrovisor da liderança chinesa: "A China é, com folga, o mais avançado e concentra mais da metade da capacidade global de BESS em escala de rede. O Brasil está atrasado."

É um contraste que define o momento. O país está montando às pressas uma cadeia industrial — com capital público, fábricas estrangeiras e modelos de negócio variados — para correr atrás de um atraso estrutural que o curtailment expõe todo mês. Os R$ 8 bilhões em expectativa de investimento são a medida do tamanho da aposta. O leilão de dezembro será o primeiro teste de quanto dessa aposta vira potência instalada de verdade.

A redação do BrasilBESS acompanha o cronograma dos LRCAPs de 2 e 4 de dezembro e os anúncios da cadeia industrial. Os valores e declarações citados foram divulgados pelas próprias empresas e por levantamento do jornal O Globo reproduzido pela imprensa setorial.

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