Primeira distribuidora com BESS no Brasil: o que o projeto de 20 MWh do Paraná ensina para o setor elétrico
A Pacto Energia e a Matrix Energia instalaram o primeiro BESS em uma distribuidora brasileira: 10 MW / 20 MWh em Coronel Vivida (PR). Análise técnica do projeto pioneiro e o que ele significa para o setor elétrico do Brasil.
Redação Brasil BESS
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Em 8 de abril de 2026, o setor elétrico brasileiro cruzou um limite que demorou anos para ser atingido. Na cidade de Coronel Vivida, no sudoeste do Paraná, a Pacto Energia Distribuição Paraná inaugurou oficialmente o primeiro sistema de armazenamento de energia em baterias (BESS) instalado diretamente na rede de distribuição de uma concessionária brasileira.
O projeto foi desenvolvido em parceria com a Matrix Energia e envolve investimento de aproximadamente R$ 30 milhões. Em termos absolutos, 10 MW de potência e 20 MWh de capacidade podem parecer modestos. Mas a importância desse projeto não está nos números — está no que ele representa como aplicação pioneira e no modelo que inaugura para o restante do país.
O contexto: o paradoxo que nenhum leilão resolve sozinho
O Brasil vive uma contradição cada vez mais evidente no seu sistema elétrico. De um lado, há alertas recorrentes do ONS sobre risco de racionamento nos horários de ponta. Do outro, há desperdício de energia renovável — o chamado curtailment — especialmente no Nordeste, onde o sol e o vento geram mais do que a rede consegue absorver. Em 2025, esse desperdício custou cerca de R$ 2,24 bilhões ao setor.
O que está no meio desses dois extremos? A ausência de flexibilidade na rede. E é exatamente isso que o BESS resolve.
"O Brasil vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que se fala em risco de apagão, também há energia excedente", afirma Alexandre Gomes, vice-presidente comercial da Matrix Energia. "A peça que faltava nesse quebra-cabeça é a capacidade, e a bateria vem para resolver isso."
Até então, os projetos de BESS no Brasil estavam concentrados em três frentes: geração (pareados com usinas solares e eólicas), transmissão (como o primeiro projeto de grande escala da ISA Energia no litoral sul paulista, em 2025) e aplicações behind-the-meter (instalados diretamente em indústrias e comércios). A distribuição era o elo ausente. Agora, não é mais.
O projeto de Coronel Vivida: especificações técnicas
| Parâmetro | Especificação |
|---|---|
| Capacidade total de armazenamento | 20 MWh |
| Potência de injeção | até 10 MW nos horários de pico |
| Configuração | 10 baterias de alta performance |
| Investimento | aproximadamente R$ 30 milhões |
| Operação iniciada | fevereiro de 2026 |
| Inauguração oficial | 8 de abril de 2026 |
| Fornecedor de tecnologia | Matrix Energia |
| Concessionária | Pacto Energia Distribuição Paraná |
| Parceria institucional | ABRADEMP |
| Localização | Coronel Vivida (PR) |
Como funciona na prática
A lógica de operação do BESS na distribuição é mais complexa do que em outros segmentos, porque a bateria precisa responder simultaneamente a dois problemas opostos: excedente de geração e pico de demanda — muitas vezes dentro do mesmo dia.
Com o avanço da geração distribuída (GD) solar, distribuidoras em regiões como o sudoeste do Paraná passam a enfrentar uma curva de geração líquida parecida com a "curva do pato", que se tornou famosa na Califórnia: excesso de energia no meio do dia (quando o sol está forte e o consumo é moderado) e pico abrupto de demanda no fim da tarde e início da noite (quando o sol se põe e o consumo residencial sobe).
O BESS resolve esse ciclo em duas etapas:
- Carregamento: armazena o excedente de energia nos horários de geração solar intensa, quando a rede teria dificuldade em absorver toda a produção distribuída.
- Descarga: injeta até 10 MW de potência na rede nos horários de pico de consumo, aliviando a demanda sobre a infraestrutura de transmissão e evitando penalidades tarifárias e riscos de sobrecarga.
Integração com medidores inteligentes
Um aspecto pouco comentado, mas estratégico, é que o projeto de Coronel Vivida foi acompanhado pela instalação de medidores inteligentes em toda a rede da distribuidora. Essa combinação é o embrião de uma smart grid real: a concessionária passa a ter visibilidade em tempo real do consumo e da geração ao longo da rede, podendo otimizar o despacho das baterias com maior precisão.
A presença dos medidores também abre caminho para modelos de operação mais sofisticados no futuro: resposta à demanda, tarifas dinâmicas e até participação em mercados de flexibilidade — quando a regulação brasileira avançar nessa direção.
O que muda para a rede de distribuição
A aplicação de BESS diretamente na distribuição resolve problemas que não são endereçados pelos outros usos da tecnologia:
1. Expansão de capacidade sem obras civis
O principal gargalo das distribuidoras em regiões de crescimento acelerado é a falta de capacidade na rede para conectar novos consumidores — sem a necessidade de obras custosas em subestações e linhas de transmissão. Antes do BESS, a única solução era investir em infraestrutura física, com prazos de 2 a 5 anos e custos elevados.
Com o sistema instalado, a Pacto Energia conseguiu liberar conexão de novas cargas sem aguardar obras. Antes mesmo da inauguração oficial, a distribuidora havia encaminhado aditivo contratual junto à supridora para elevar a disponibilidade imediata para 14,5 MW — permitindo a continuidade do crescimento de clientes residenciais e comerciais da região.
2. Melhora nos indicadores de qualidade (DEC/FEC)
Oscilações de tensão e interrupções de fornecimento penalizam distribuidoras nos índices regulatórios DEC (Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora) e FEC (Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora). Um BESS capaz de responder em milissegundos a variações de carga e geração tem impacto direto na estabilidade da rede — e, portanto, nos indicadores regulatórios que definem receitas e penalidades da concessão.
3. Coordenação DSO-TSO
Ricardo Costa, diretor de Inteligência de Produtos e Regulação da Matrix Energia, destaca que o projeto introduz uma lógica mais integrada entre o Operador de Sistema de Distribuição (DSO) e o Operador de Sistema de Transmissão (TSO). Essa coordenação é crítica em um sistema elétrico com alta penetração de renováveis — e o Brasil vai precisar cada vez mais dela à medida que a capacidade solar instalada cresce.
O caso de negócio: quanto custa e para quem faz sentido?
Análise do investimento
O projeto de Coronel Vivida custou aproximadamente R$ 30 milhões para um sistema de 10 MW / 20 MWh. Isso representa um CAPEX unitário de:
| Métrica | Valor |
|---|---|
| CAPEX por potência instalada | R$ 3.000/kW |
| CAPEX por capacidade de energia | R$ 1.500/kWh |
| Duração equivalente | 2 horas (razão MWh/MW) |
Para uma distribuidora de pequeno porte como a Pacto — que atende uma área de 683 km² com mais de 450 km de rede — o retorno não vem apenas da redução de custos operacionais. Vem também da postergação de investimentos em infraestrutura: cada MW de expansão de rede pode custar entre R$ 1,5 e R$ 4 milhões, dependendo da topografia e da extensão das obras. Se o BESS permitir postergar por 5 a 10 anos um conjunto de obras que custaria R$ 40 a 60 milhões, o retorno se justifica facilmente.
Para quem esse modelo faz mais sentido?
O perfil ideal para replicação do modelo de Coronel Vivida inclui distribuidoras em regiões com:
- Alta penetração de geração distribuída solar (acima de 15-20% da carga total)
- Crescimento de demanda acima da média nacional (especialmente interior, agronegócio, pequenas indústrias)
- Rede antiga com capacidade de transmissão limitada, onde obras de reforço são caras e demoradas
- Concessões pequenas ou médias, onde a escala não justifica grandes subestações adicionais
Estima-se que dezenas de distribuidoras brasileiras se enquadrem nesse perfil — especialmente no interior do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
A Matrix Energia e o plano de expansão
A Matrix Energia não é estreante em BESS. A empresa já atende 62 clientes em 13 estados com soluções de armazenamento, principalmente em modelos behind-the-meter. Sua base acionária inclui o Duferco Group (grupo global com atuação em energia, siderurgia e transporte marítimo, com operações em mais de 20 países) e a Prisma Capital (gestora de investimentos alternativos com mais de R$ 21 bilhões em ativos sob gestão).
Com o projeto da Pacto, a Matrix entra no segmento de distribuição — e está acelerando. A empresa planeja sair dos atuais aproximadamente 120 MWh em capacidade instalada para cerca de 250 MWh ao longo de 2026. Isso representa um crescimento de mais de 100% em um único ano.
Segundo a empresa, o caso de Coronel Vivida tem "potencial de contribuir para a modernização da infraestrutura elétrica em outras regiões do país" — e o interesse de outras distribuidoras já está sendo mapeado.
O que falta para escalar no Brasil?
O projeto da Pacto é pioneiro, mas ainda está longe de ser o padrão. Dois obstáculos regulatórios precisam ser resolvidos para que a distribuição se torne um mercado de massa para BESS:
1. Definição da "tarifa dupla"
A ANEEL ainda não finalizou se sistemas de armazenamento devem ser tratados como geradores, consumidores ou uma classe híbrida — discussão central da Consulta Pública 39. Essa definição impacta diretamente as obrigações tarifárias de projetos BESS — especialmente os que operam na distribuição, que tanto consomem quanto geram energia em momentos diferentes do dia.
2. Mecanismos de remuneração
Hoje, distribuidoras que investem em BESS precisam justificar o investimento dentro da sua base de ativos regulatória (BRR). Não há ainda um mecanismo padronizado para que esse tipo de investimento gere receita reconhecida pela ANEEL — o que aumenta o risco percebido e dificulta o financiamento.
3. LRCAP de baterias previsto para junho
Um terceiro elemento pode destravar o mercado: o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade exclusivo para baterias está previsto para junho de 2026, segundo declarações recentes do ministro Alexandre Silveira. Embora o foco seja potência em escala de rede (não distribuição), o resultado do certame deve estabelecer preços de referência que influenciarão todo o mercado brasileiro de BESS — inclusive projetos como o de Coronel Vivida.
Esses três pontos estão na pauta regulatória de 2026, e suas resoluções serão determinantes para que o modelo de Coronel Vivida passe de caso isolado a padrão de mercado.
Conclusão
O projeto de Coronel Vivida é pequeno em megawatts, mas grande em significado. É a prova de conceito que o setor precisava: um BESS operando diretamente na distribuição brasileira, resolvendo um problema real (paradoxo geração/demanda), com retorno econômico demonstrável e integração tecnológica com medidores inteligentes.
Para distribuidoras que enfrentam os mesmos desafios — e são dezenas —, a pergunta não é mais "isso funciona no Brasil?". A resposta existe e está no Paraná desde fevereiro de 2026. A pergunta agora é outra: quando o seu projeto começa?
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