Reta final do leilão de baterias: consulta pública encerrada e a nota que define quanta bateria cabe vence em 30 de setembro
Com as CPs 022 e 023/2026 encerradas em 14 de setembro, o leilão de baterias entra na reta final. A Nota Técnica de capacidade remanescente do SIN vence em 30 de setembro e segue pendente; a habilitação técnica sai em 17 de novembro. Analisamos o funil dos 296.807 MW cadastrados e o impasse não resolvido do rateio do encargo.
Redação Brasil BESS
Editor

A consulta pública dos editais dos dois leilões de baterias encerrou-se na segunda-feira, 14 de setembro. Daqui em diante o LRCAP de Armazenamento não tem mais fase de debate: tem prazo.
São três datas, e a primeira vence em treze dias. A EPE tem até 30 de setembro para publicar a Nota Técnica de quantitativos da capacidade remanescente do SIN — o documento que diz, barramento a barramento, quanta bateria cabe. Até o fechamento desta análise, em 17 de setembro, ela não havia sido publicada na página oficial do leilão. Depois vêm a habilitação técnica, em 17 de novembro, e os leilões, em 2 e 4 de dezembro.
No meio do caminho está o número que o mercado repete desde agosto — 6.091 projetos, 296.807 MW — e que vai encolher. Esta análise explica em quanto, por quê e o que fazer nas próximas semanas.
As datas que sobraram
| Data | Evento | Quem entrega |
|---|---|---|
| 14/09/2026 | Encerramento das contribuições às CPs nº 022 e 023/2026 | ANEEL — concluído |
| Até 30/09/2026 | Nota Técnica de quantitativos da capacidade remanescente do SIN | EPE/ONS — pendente |
| 14/10/2026 | Workshop para os futuros agentes de armazenamento | ANEEL |
| 27/10/2026 | Aprovação dos editais (publicação no DOU dois dias depois) | ANEEL |
| 17/11/2026 | Resultado da habilitação técnica | EPE |
| 18 e 20/11/2026 | Encerramento das inscrições (leilões de 2/12 e 4/12) | ANEEL |
| 02 e 04/12/2026 | Os leilões | ANEEL |
O calendário foi detalhado pelo presidente da Comissão Permanente de Leilões da ANEEL, Ivo Nazareno, durante a Audiência Pública nº 005/2026, realizada em Brasília em 1º de setembro. A sessão, presidida pelo diretor Gentil Nogueira, reuniu cerca de 70 pessoas presencialmente e outras 200 pela internet, com onze expositores. Fonte: Canal Solar
A comporta de 30 de setembro é a mais decisiva — e a menos comentada
A Nota Técnica de quantitativos é o documento que transforma intenção em teto físico. Em julho, EPE e ONS já publicaram a metodologia (NT-ONS DPL 0057/2026 / EPE-DEE-RE-067/2026-R0), que define como a margem por barramento será calculada. O que falta são os números em MW.
Sem eles, nenhum desenvolvedor sabe se o ponto de conexão que escolheu comporta o projeto que cadastrou. Com eles, metade das teses de localização construídas desde junho vai precisar ser refeita em poucas semanas — e a janela até o encerramento das inscrições, em 18 e 20 de novembro, é curta.
Vale não confundir dois documentos de nome quase igual: em 31 de agosto, o ONS publicou uma Nota Técnica de quantitativos de capacidade remanescente referente à 1ª Temporada de Acesso de 2026 da PNAST — processo distinto, com base normativa própria. A nota que interessa ao LRCAP de Armazenamento é outra, e segue pendente.
O número de agosto, e por que ele vai encolher
Em 3 de agosto, a EPE fechou o cadastramento com 6.091 projetos distintos e 296.807 MW, recorde de participação em certames do setor elétrico brasileiro. Fonte: EPE
| Modalidade | Projetos | Potência |
|---|---|---|
| Armazenamento Nacional (Produto 2028 A) | 5.296 | 261.408 MW |
| Armazenamento (Produto 2028 B) | 5.734 | 281.003 MW |
| Cadastrados nos dois certames | 4.939 | 245.603 MW |
| Total de projetos distintos | 6.091 | 296.807 MW |
Conferimos a aritmética, e ela fecha: 5.296 mais 5.734 menos 4.939 dá exatamente 6.091 projetos. Em potência, 261.408 mais 281.003 menos 245.603 resulta em 296.808 MW, um megawatt acima do total divulgado — diferença de arredondamento. Os dados por modalidade vêm do Canal Solar e da Mercurio Partners; o total consolidado, da própria EPE. Fonte: Canal Solar | Mercurio Partners
O dado mais revelador está na sobreposição: 81% dos projetos se inscreveram nos dois certames ao mesmo tempo. A maioria dos desenvolvedores ainda não decidiu se vai nacionalizar o equipamento — deixou as duas portas abertas e vai escolher depois, conforme o custo do credenciamento no CFI do BNDES e a competição de cada leilão. Essa escolha agora tem prazo.
A distribuição regional confirma a tese que sustentamos desde o mapa dos 129 barramentos bonificados: o Nordeste concentra 71,1% da potência inscrita, seguido de Sudeste (18,8%), Sul (5,1%), Centro-Oeste (3,4%) e Norte (1,6%).
A própria EPE tratou de esfriar a leitura do número. Em nota, afirma que os projetos cadastrados não representam, por si só, os empreendimentos aptos ao certame, e que somente a partir da habilitação se conhecerá a potência efetivamente apta às fases seguintes.
Há três razões técnicas para a inflação:
Modularidade. Um BESS não é uma usina hidrelétrica. O mesmo terreno e o mesmo ponto de conexão comportam vários registros com recortes diferentes de potência. Cadastrar várias configurações é barato e preserva opcionalidade.
Dispensa de licença nesta fase. A Portaria Normativa MME nº 136, de 1º de junho de 2026, dispensou a licença ambiental para a habilitação técnica nesta etapa. Sem esse filtro, o custo de entrada caiu drasticamente.
Ausência de certificação de projeto no cadastro. Também não se exigiu certificação. O crivo real ficou todo para 17 de novembro.
Some as três: o cadastramento mediu interesse, não capacidade de execução. A escala, ainda assim, diz algo. A Mercurio Partners comparou o volume inscrito com a capacidade instalada do SIN informada pelo ONS em agosto de 2026, de 256.462 MW — cadastrou-se mais potência em baterias do que o país inteiro tem instalada em geração.
O impasse que a consulta pública não resolveu
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Há um problema aberto que não é de engenharia, é de conta.
A Lei nº 15.269/2025 estabeleceu que o custo do armazenamento contratado será rateado entre os agentes de geração, sem repasse direto ao consumidor final. Como esse rateio se dará na prática — parcela por segmento, horizonte, base de cálculo — depende de regulamentação complementar que a ANEEL conduz em processo separado. A agência abriu as consultas públicas dos editais mantendo indefinida a forma de divisão dos custos, e as encerrou no dia 14 sem resolvê-la.
Na audiência de 1º de setembro, o tema dominou. A ABSAE, pela voz de seu presidente, Markus Vlasits, avaliou a minuta como madura e concentrou suas contribuições em ajustes pontuais, mas apontou uma preocupação central: separar juridicamente o CRCAP, que formaliza a contratação do serviço de reserva de capacidade, do COPCAP, instrumento ligado ao recolhimento do encargo. São contratos distintos, com partes e funções diferentes, e a associação considera arriscado que o edital da contratação faça referência ao COPCAP enquanto a agência ainda conduz o processo regulatório do custeio.
Advogados que participaram da sessão levantaram o efeito prático da indefinição sobre modelagem financeira, risco de crédito e previsibilidade de retorno — e a possibilidade de que os documentos do leilão cristalizem a regra atual justamente quando há propostas legislativas em curso que podem alterá-la.
Sobre adiamento, as posições ficaram claras. A ABSAE é contrária: o sistema precisa de potência com urgência, os empreendedores já cumpriram o cadastramento, e o primeiro LRCAP, em 2021, também correu com questões de rateio em aberto. Gentil Nogueira reforçou que a agência trabalha para manter o calendário, e que o adiamento só entraria no horizonte se uma mudança legislativa sobre o encargo ocorresse muito perto dos leilões.
Por que a pressa se justifica
Um levantamento da Volt Robotics divulgado em 16 de setembro, baseado em dados públicos do ONS, dá a dimensão do problema que as baterias deveriam atacar.
Entre 1º de outubro de 2021 e 31 de agosto de 2026, o Curtailment Tracker da consultoria contabilizou ao menos 73,4 milhões de MWh de energia cortada. Só nos oito primeiros meses de 2026, o volume médio de cortes alcançou 3.853 MW médios, 18,3% acima do mesmo período de 2025. Foram 51 dias críticos entre janeiro e agosto com mais de 60% da geração renovável disponível restringida em algum momento, contra 30 dias no ano anterior; os episódios acima de 80% passaram de sete para doze.
A composição mudou também: os cortes por razão energética representaram 67% do total em 2026, contra 49% em 2025 e 21% em 2024. O problema deixou de ser predominantemente de rede e passou a ser de excedente — exatamente o caso que a bateria resolve.
Pela metodologia da consultoria, o volume acumulado equivaleria a R$ 8,6 bilhões valorado pelo PLD, ou R$ 13,1 bilhões pelas regras contratuais modeladas usina a usina, sem correção monetária. O próprio estudo ressalva que não se trata de apuração oficial de perdas nem de compensação reconhecida, e que revisões de dados podem alterar os resultados. Fonte: Canal Solar
Registre-se a ressalva da própria Volt Robotics: curtailment não é um problema único. A consultoria distingue razão energética, razão elétrica e razão de confiabilidade, e argumenta que o mesmo volume cortado pode exigir respostas diferentes — transmissão, armazenamento, flexibilização, compensadores síncronos, automação ou melhoria de previsão. Bateria é uma das ferramentas, não a única. É a mesma leitura que fizemos ao mapear os cortes do primeiro quadrimestre.
O que fazer nas próximas semanas
Trate 30 de setembro como sua data, não a da EPE. Projeto em barramento sem margem não chega à disputa de preço, por melhor que seja o lance. Rode o plano B de conexão antes de a nota sair, não depois.
Não espere o edital para decidir A ou B. Os 81% que se cadastraram nas duas modalidades vão precisar escolher. A decisão depende do custo do credenciamento no Sistema-CFI do BNDES contra a competição esperada em cada certame — e a janela entre a publicação do edital, prevista para o fim de outubro, e o encerramento das inscrições, em 18 e 20 de novembro, é estreita demais para começar essa conta do zero.
Modele o encargo com cenários, não com premissa. Enquanto o rateio não estiver regulamentado, qualquer modelo financeiro que trate o COPCAP como resolvido está assumindo risco não precificado.
O leilão deixou de ser tese e virou cronograma em junho. Nesta semana deixou de ser cronograma e virou contagem regressiva. Seguiremos acompanhando cada comporta — a próxima vence em 30 de setembro.
Análise produzida pelo Brasil BESS a partir das Consultas Públicas ANEEL nº 022 e 023/2026, da Audiência Pública ANEEL nº 005/2026 (1/9/2026), do informe de cadastramento da EPE (3/8/2026), da Portaria Normativa MME nº 136, de 1º de junho de 2026, e do levantamento da Volt Robotics divulgado em 16/9/2026. Situação da Nota Técnica de capacidade remanescente verificada na página oficial do LRCAP Armazenamento 2026 na EPE em 17 de setembro de 2026.
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