Térmicas contratam 19 GW, baterias seguem esperando: o contraste do LRCAP 2026
O LRCAP de térmicas contratou 18,977 MW em março de 2026 com R$ 64,5 bi em investimentos. Enquanto isso, o primeiro leilão de BESS segue sem portaria definitiva.
Redação Brasil BESS
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Em março de 2026, o governo federal contratou cerca de 19 GW de potência em termelétricas e hidrelétricas, em um dos maiores leilões de reserva de capacidade já realizados no Brasil. Em abril, segundo o cronograma originalmente anunciado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), deveria acontecer o primeiro leilão exclusivamente dedicado a sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) da história do país. Não aconteceu — e, a esta altura, ainda não há data definitiva.
O contraste entre os dois certames expõe uma tensão estrutural no planejamento energético brasileiro: enquanto a contratação de capacidade firme por meio de térmicas avança com regras consolidadas e investimentos bilionários, o arcabouço regulatório necessário para destravar o leilão de BESS permanece incompleto. Para o setor de armazenamento, cada semana de atraso corrói a janela de suprimento prevista para 2028 e empurra investimentos para modelos privados "atrás do medidor".
O que foi contratado em março: números e vencedores
O primeiro LRCAP de 2026, realizado pela ANEEL e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) no dia 18 de março, contratou 18.977 MW de potência firme, conforme reportagem da CNN Brasil publicada em 20 de março de 2026. O investimento total estimado alcançou R$ 64,5 bilhões, com deságio médio de 5,52% em relação aos preços-teto definidos pelo MME. A economia estimada pelo governo foi de R$ 33,6 bilhões ao longo da vigência contratual, segundo a mesma reportagem.
O certame foi concentrado em termelétricas a gás natural, carvão mineral e ampliações hidrelétricas. Dois dias depois, em 20 de março, o 3º LRCAP complementou a contratação com 501,321 MW de térmicas a óleo combustível, diesel e biodiesel, com deságio de 50,14% e economia estimada de R$ 1,83 bilhão, conforme comunicado oficial divulgado pela ANEEL no portal gov.br em 20 de março de 2026.
A Eneva consolidou-se como a grande vencedora do certame de gás natural e carvão. Segundo matéria do portal Eixos publicada em 19 de março de 2026, a companhia contratou 5,06 GW — aproximadamente um quarto de toda a potência negociada no leilão. Em comunicado oficial ao mercado divulgado em 18 de março de 2026 e reportado pela Visno Invest, a própria Eneva informou que os novos Contratos de Potência de Reserva de Capacidade (CRCAP) podem adicionar até R$ 161,1 bilhões de faturamento bruto fixo ao longo do ciclo contratual até 2031, a valores de setembro de 2025. O investimento anunciado pela companhia é de R$ 18,2 bilhões.
Outros grupos relevantes entre os vencedores, conforme reportagens do Eixos de 19 e 20 de março de 2026, foram Petrobras (2,2 GW em térmicas a gás), Áxia (antiga Eletrobras), Âmbar (grupo J&F), Engie, Copel e Spic Brasil. Em comunicado próprio publicado pela Agência Petrobras em 20 de março de 2026, a estatal informou que somou nove usinas contratadas nos dois certames, totalizando cerca de 2,6 GW de potência firme para o SIN entre 2026 e 2031. A Copel foi a maior vencedora em hidrelétricas, com 1,86 GW contratados para a expansão das usinas de Foz da Areia e Areia, no Paraná, segundo o Eixos.
A lógica da receita fixa: por que o modelo atraiu tanto capital
O atrativo do LRCAP para as térmicas não está apenas no volume contratado, mas na estrutura de remuneração. Os contratos remuneram disponibilidade de potência, não energia gerada. Os vencedores recebem uma receita fixa mensal da CCEE pela obrigação de estar disponíveis para atender o SIN quando convocados, e podem comercializar livremente a energia efetivamente despachada.
Essa estrutura altera fundamentalmente o perfil de risco dos ativos. Em vez de depender exclusivamente da volatilidade do preço da energia no mercado de curto prazo, as geradoras combinam três fluxos: receita fixa pela potência (MW), receita variável pela energia gerada (MWh) e, em alguns casos, serviços ancilares. Essa diversificação aumenta a previsibilidade do fluxo de caixa e facilita a estruturação de financiamentos bancários de longo prazo.
O mercado precificou rapidamente o impacto do resultado no caso da Eneva: em reportagem do NeoFeed publicada em 18 de março de 2026, foi registrado que as ações da companhia (ENEV3) fecharam em alta de 15,08%, cotadas a R$ 24,35, entre as maiores valorizações do pregão.
É essa mesma lógica — receita fixa pela disponibilidade de um ativo — que deveria ancorar a viabilidade econômica dos projetos BESS no leilão dedicado de baterias. A diferença é que, para as térmicas, o arcabouço está consolidado. Para o armazenamento, ainda não.
O leilão de baterias parado: o que falta destravar
O cronograma oficial para o primeiro leilão de BESS do Brasil começou a ser desenhado em novembro de 2025, quando o MME publicou a Portaria nº 878/2025 abrindo a Consulta Pública nº 202/2025 sobre as diretrizes do certame. Conforme noticiado pelo Canal Solar em 14 de novembro de 2025 e pela PV Magazine Brasil em 10 de novembro de 2025, a consulta ficou aberta por 20 dias e encerrou em 1º de dezembro de 2025. Desde então, o setor aguarda a publicação da portaria normativa definitiva — sem a qual a ANEEL não elabora o edital, a EPE não habilita projetos e os investidores não conseguem precificar adequadamente os empreendimentos.
A minuta submetida à consulta estabelece parâmetros técnicos e comerciais bastante claros, resumidos na tabela abaixo em comparação com o que foi executado no LRCAP das térmicas.
| Parâmetro | LRCAP Térmicas/UHE (março/2026) | LRCAP BESS (minuta, pendente) |
|---|---|---|
| Status | Realizado | Portaria definitiva não publicada até o fechamento desta reportagem |
| Produto contratado | Potência (MW) | Potência – Armazenamento (MW) |
| Prazo contratual | Variável por rodada (até anos finais da década) | 10 anos |
| Início de suprimento | Entre 2026 e 2031 | 1º de agosto de 2028 |
| Potência mínima | Definida por tecnologia | 30 MW |
| Perfil operacional | Despacho flexível | Potência máxima por 4 horas/dia, recarga em até 6 horas |
| Volume contratado | ≈ 19 GW | Expectativa de 2 GW (segundo declaração do MME) |
Em entrevista ao portal CanalEnergia publicada em 11 de fevereiro de 2026 e assinada pela jornalista Vanessa Andrade, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o leilão de baterias deve ocorrer "até junho". A sinalização foi reforçada em reportagem do MegaWhat publicada em 18 de fevereiro de 2026, que também registrou a expectativa de contratação de cerca de 2 GW atribuída pelo ministro ao certame. Até o fechamento desta reportagem, a portaria definitiva com as diretrizes não havia sido publicada.
Procurado oficialmente sobre o cronograma, o MME tem mantido publicamente a posição de que o leilão ocorrerá em 2026, conforme notícia oficial divulgada pelo ministério em 10 de novembro de 2025 no portal gov.br. O prazo original, porém, era abril, e o deslizamento do calendário tem motivado preocupação entre agentes do setor — posição registrada por veículos como Eixos e MegaWhat ao longo de fevereiro e março de 2026.
Os nós regulatórios que precisam ser desatados
Mesmo quando a portaria definitiva for publicada, três questões regulatórias seguem como pontos de tensão entre o governo, os investidores e as associações do setor, conforme analisado em estudo da consultoria ePowerBay publicado em dezembro de 2025 e em reportagens do Canal Solar, Eixos e PV Magazine Brasil entre dezembro de 2025 e março de 2026.
Dupla tarifação TUST/TUSD. A definição de como será cobrada a tarifa de uso do sistema de transmissão e distribuição nas operações de carga e descarga do BESS é o ponto mais sensível. Em agosto de 2025, divergência entre diretores da ANEEL levou ao adiamento da votação dos resultados da Consulta Pública nº 39, que tratava exatamente do enquadramento do armazenamento como consumidor ou como gerador, conforme noticiado pela PV Magazine Brasil em 10 de novembro de 2025. Sem resolução, investidores não conseguem calcular com precisão os custos operacionais ao longo do contrato.
Prazo contratual de 10 anos. Em entrevista ao MegaWhat publicada em 18 de fevereiro de 2026, Fernando Elias, diretor de relações institucionais da Casa dos Ventos, afirmou: "A gente está falando desse leilão há mais de um ano, ele foi postergado muitas vezes. É uma pena, porque as baterias já poderiam estar [operando] hoje, ela entra no sistema muito rapidamente." Em análise publicada pela ePowerBay em dezembro de 2025, parte dos agentes do setor defende que o prazo de 10 anos é insuficiente para amortizar o CAPEX típico de projetos BESS em escala utility, apontando contratos de 15 anos como padrão observado em mercados maduros. A minuta atual, porém, mantém o prazo alinhado ao modelo das térmicas.
Classificação pela Lei 15.269/2025. A lei sancionada em 2025 classificou o BESS como ativo de transmissão, atribuindo à ANEEL a competência de regular e fiscalizar os sistemas de armazenamento, além de criar mecanismos de incentivo como a possibilidade de redução a zero do Imposto de Importação e inclusão no REIDI, com limite anual de renúncia fiscal de R$ 1 bilhão entre 2026 e 2030, conforme análise publicada pelo Canal Solar em 9 de dezembro de 2025. Em artigo de opinião publicado pelo portal Eixos em 19 de março de 2026, o pesquisador André Tokarski, do Ineep, argumentou que a classificação como ativo de transmissão pode conflitar, na prática, com a sistemática do leilão estruturada como produto de potência.
Além desses três eixos, o estudo da ePowerBay de dezembro de 2025 aponta que a exigência de 85% de eficiência no ponto de conexão é considerada inviável por parte da indústria, com fabricantes estimando valores mais realistas próximos a 82% quando consideradas as perdas no sistema.
O que está em jogo: 18 GW prontos, janela apertando
Do lado da oferta, o interesse do mercado é inequívoco. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE) divulgado em reportagem da PV Magazine Brasil de 10 de novembro de 2025, cerca de 18 GW de projetos BESS já estão prontos para cadastro no primeiro leilão. A demanda inicial projetada, entretanto, é de apenas 2 GW — equivalente a 8 GWh em cenários de quatro horas de entrega. Em entrevista ao Brazil Journal publicada em janeiro de 2026, o presidente da ABSAE, Markus Vlasits, projetou que esse volume inicial mobilizaria investimentos da ordem de R$ 10 bilhões.
No horizonte mais longo, os números são ainda mais significativos. A mesma ABSAE, com base em metodologia derivada do Plano Decenal de Expansão da Energia (PDE), projeta um déficit de potência de 55 GW até 2034, estimando que o BESS poderia atender entre 9 GW e 10 GW dessa necessidade — patamar que exigiria múltiplos leilões ao longo da década.
Enquanto a regulação do LRCAP não avança, o mercado privado não para. O segmento comercial e industrial (C&I), bem como aplicações "atrás do medidor", movimenta projetos próprios, muitos no modelo BESS as a Service, em que o cliente paga pelo serviço de armazenamento sem imobilizar capital no ativo. Estudo da consultoria Greener, citado em reportagem da pv magazine Brasil de 23 de dezembro de 2025 assinada por Alessandra Neris, aponta potencial de mais de R$ 22,5 bilhões em investimentos em armazenamento "atrás do medidor" no Brasil até 2030.
O paralelo que importa
O resultado do LRCAP das térmicas demonstrou o que um arcabouço regulatório maduro pode entregar quando combinado a uma receita fixa de longo prazo: contratação massiva, capital atraído em escala, deságios que, embora modestos, viabilizam os projetos. A lógica econômica que levou a Eneva a projetar receitas fixas de até R$ 161,1 bilhões até 2031 é, em essência, a mesma que poderia destravar a indústria de armazenamento no Brasil.
A diferença está na maturidade regulatória. Para as térmicas, o LRCAP é um modelo rodado há anos, com diretrizes consolidadas em portarias sucessivas do MME. Para o BESS, o país ainda discute o enquadramento básico da tecnologia — se é gerador ou consumidor, se é ativo de potência ou de transmissão, como se remunera o uso da rede — ao mesmo tempo em que tenta estruturar um leilão inédito.
A janela para o início de suprimento em agosto de 2028 não é eterna. Cada semana sem a portaria definitiva aproxima o cenário em que os projetos mais complexos se tornem inexequíveis dentro do prazo original. Se o Brasil pretende de fato capturar os 9 a 10 GW de BESS que seu déficit de potência permite, a resposta não virá de adiamentos sucessivos, mas da publicação de um marco regulatório que ofereça ao armazenamento a mesma previsibilidade que as térmicas tiveram em março.
Fontes consultadas: Ministério de Minas e Energia (Portaria nº 878/2025 e notícia oficial de 10/11/2025 no portal gov.br); ANEEL (comunicado oficial de 20/03/2026 no portal gov.br); Agência Petrobras (comunicado de 20/03/2026); comunicado oficial da Eneva ao mercado de 18/03/2026 (reportado pela Visno Invest em 19/03/2026); CNN Brasil (reportagem de 20/03/2026); NeoFeed (reportagem de 18/03/2026); CanalEnergia (reportagem de Vanessa Andrade, 11/02/2026); MegaWhat (reportagem de 18/02/2026); Eixos (reportagens de 19 e 20/03/2026, e artigo de opinião de André Tokarski de 19/03/2026); Canal Solar (reportagens de 10/11/2025, 14/11/2025, 9/12/2025 e 16/01/2026); PV Magazine Brasil (reportagem de 10/11/2025 e reportagem de Alessandra Neris de 23/12/2025); Brazil Journal (janeiro de 2026); estudo da consultoria ePowerBay de dezembro de 2025.
Este artigo é uma análise jornalística do BrasilBESS baseada em fontes públicas. Correções, esclarecimentos ou manifestações das partes mencionadas podem ser enviados ao portal para análise e publicação em caráter complementar.
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