Lote 5: o leilão de transmissão de 2027 leva a primeira bateria da transmissão brasileira ao Acre
A ANEEL abriu a CP 032/2026 com um lote inédito: 100 MW / 200 MWh grid-forming na SE Cruzeiro do Sul (AC), contrato de 18 anos, leilão em 30 de abril de 2027. Por que o planejador escolheu bateria em vez de térmica, e o que muda quando o armazenamento vira ativo de transmissão remunerado por RAP.
Redação Brasil BESS
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Existem hoje dois caminhos abertos para contratar bateria de grande porte no Brasil, e eles não se parecem em nada. Um é o LRCAP de Armazenamento, que vai a leilão em 2 e 4 de dezembro e remunera disponibilidade de potência disputada em fila nacional de preço. O outro nasceu em 8 de setembro, quando a diretoria da ANEEL aprovou a abertura da Consulta Pública nº 032/2026 e colocou, entre os 12 lotes da minuta do edital do Leilão de Transmissão nº 01/2027, um lote cujo objeto não é linha nem subestação: é uma bateria.
É o Lote 5. E ele muda a natureza do ativo.
O que está no Lote 5
| Item | Especificação |
|---|---|
| Potência / energia | 100 MW / 200 MWh |
| Local | Barramento de 69 kV da SE Cruzeiro do Sul (AC) |
| Finalidade | Confiabilidade do atendimento a Cruzeiro do Sul e Feijó |
| Tecnologia exigida | Grid-forming (formação de rede) |
| Prazo de implantação | 36 meses |
| Vigência do contrato | 18 anos (os outros 11 lotes têm 30) |
| Data do leilão | 30 de abril de 2027, na B3 (SP) |
O certame inteiro prevê R$ 12,9 bilhões de investimento, 3.245 km de linhas novas e 1.386 MVA de capacidade de transformação em 13 estados, com estimativa da agência de 29,5 mil empregos diretos e indiretos. O prazo menor do Lote 5 é justificado pela vida útil das baterias, conforme a Nota Técnica Conjunta nº 12/2026-SEL-SCE/ANEEL, de 2 de setembro. Na prática, são 3 anos de implantação mais 15 de operação comercial. Fonte: ANEEL via Canal Solar | Movimento Econômico
O Lote 5 não é peça solta. Ele é complementar ao Lote 4, que prevê duas linhas de 230 kV — Tucumã–Feijó, com 376 km, e Feijó–Cruzeiro do Sul, com 255 km, somando 631 km de linha nova no estado, com prazo de 60 meses. A bateria entra em 36 meses; a linha, em 60. Essa diferença de dois anos é o próprio argumento do projeto.
As contribuições à Consulta Pública nº 032/2026 vão de 10 de setembro a 26 de outubro, pelo e-mail cp032_2026@aneel.gov.br. Depois da análise, o edital passa por deliberação prévia da diretoria e, se aprovado, segue em dezembro ao Tribunal de Contas da União. Fonte: O Setor Elétrico
Por que o Acre
Cruzeiro do Sul não é escolha aleatória nem aceno regional. É o ponto do SIN onde o problema aparece com mais clareza.
A região era o segundo maior sistema isolado do Brasil, atrás apenas de Boa Vista, atendida por uma térmica a óleo diesel de 20 MW que consumia cerca de 4,5 milhões de litros por mês. A SE Feijó foi interligada ao SIN em junho de 2023; a SE Cruzeiro do Sul, em dezembro de 2024, com a integração concluída pelo ONS em 16 de dezembro daquele ano. As térmicas locais de Cruzeiro do Sul, Feijó, Tarauacá, Manoel Urbano e Assis Brasil foram desativadas na sequência. Fonte: Energisa | MegaWhat
O que a interligação não resolveu foi a topologia. A EPE registra que o subsistema ainda opera em critério N — há risco de interrupção diante de qualquer contingência. Um único circuito radial de 230 kV, atravessando centenas de quilômetros de floresta, alimenta o extremo oeste do país. Se esse circuito cai, o atendimento cai junto. E as térmicas que antes sustentavam a região já não estão mais lá.
A escolha entre a bateria e a térmica
Esse é o ponto que merece atenção, porque foi decidido tecnicamente antes de virar lote de leilão.
Em 29 de janeiro de 2026, MME e EPE divulgaram o estudo “Soluções para aumento da confiabilidade no atendimento às cargas de Feijó e Cruzeiro do Sul”. A solução de curto prazo recomendada foi exatamente um sistema de armazenamento de 100 MW / 200 MWh com tecnologia grid-forming na Subestação Cruzeiro do Sul, capaz de suprir por até duas horas toda a demanda máxima local em situações de falta ou de intervenção para manutenção, atendendo mais de 200 mil pessoas. Fonte: MME
A alternativa óbvia seria contratar novas térmicas. A análise da EPE concluiu que o armazenamento é técnica e economicamente superior a novas UTEs em Cruzeiro do Sul, Tarauacá e Feijó, e apontou o motivo central: as térmicas locais não têm capacidade de operação sincronizada com a rede, o que as torna ineficazes para evitar quedas imediatas após contingências. A modelagem usou o software PowerFactory para simular o comportamento das baterias hora a hora, testando ciclos de carga e descarga para garantir o suprimento das cargas locais em emergência. Fonte: Canal Solar
Traduzindo: o problema do Juruá não é falta de energia, é falta de resposta em milissegundos. Um grupo gerador a diesel leva minutos para assumir carga, e nesse intervalo a luz já caiu. Um inversor grid-forming estabelece tensão e frequência de forma autônoma, sem depender de uma referência externa. É a diferença entre seguir a rede e ser a rede.
Em 27 de abril, a EPE levou os resultados ao Workshop de Integração de BESS ao Planejamento da Transmissão, com participação de MME, ANEEL e ONS. Na ocasião, o diretor do Departamento de Planejamento e Outorgas de Transmissão do MME, Guilherme Zanetti, afirmou que a proposta seria integrada ao plano de outorgas de transmissão ainda em 2026, com expectativa de inclusão em leilão de transmissão em 2027. Quatro meses depois, a Consulta Pública nº 032/2026 cumpriu exatamente esse roteiro. Fonte: Cenário Energia | EPE
O que muda quando a bateria vira ativo de transmissão
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Aqui está a diferença que o mercado precisa internalizar — e ela é de modelo de negócio, não de tecnologia.
| LRCAP de Armazenamento | Lote 5 do LT 01/2027 | |
|---|---|---|
| O que se contrata | Disponibilidade de potência | Serviço de transmissão |
| Instrumento | CRCAP | Contrato de concessão |
| Remuneração | Receita Fixa anual | RAP |
| Quem define o projeto | O empreendedor | O planejador (EPE/MME) |
| Prazo | 15 anos | 18 anos |
| Porte | Mínimo de 30 MW, a critério do proponente | 100 MW, definido no edital |
| Início de suprimento | 1º de agosto de 2028 | 36 meses após o contrato |
No LRCAP, o empreendedor escolhe onde se conectar, dimensiona o projeto, disputa uma fila nacional de preço e carrega o risco de implantação. No Lote 5, o planejador define a necessidade, especifica o ativo e licita o direito de construir e operar sob receita regulada. É o modelo de concessão de transmissão aplicado a uma bateria.
A ANEEL reconhece que o terreno é novo. Segundo a agência, os requisitos técnicos e regulatórios para esse tipo de instalação ainda não estão definidos, por se tratar de tecnologia inédita no setor de transmissão — cabe ao edital tratar dos pontos operativos, de equipamentos e de demanda. Os valores das receitas anuais permitidas só serão apresentados na etapa de aprovação da minuta do edital para encaminhamento ao TCU. Fonte: TAGD Advogados | Jornal de Brasília
Uma observação de método: circulou na imprensa setorial uma estimativa de investimento específica para o Lote 5. Não localizamos essa cifra em documento da ANEEL nem em segunda fonte independente, e por isso não a reproduzimos aqui. O número que de fato importa — a RAP de referência — ainda não foi publicado.
Quatro coisas para observar
A especificação técnica. Não existe hoje norma consolidada de grid-forming para ativo de transmissão no Brasil. O que o edital escrever sobre requisitos de inércia sintética, resposta a contingência, degradação e reposição de células ao longo de 18 anos vira precedente para todos os projetos seguintes.
A reposição do ativo. Uma concessão de linha de 30 anos entrega essencialmente o mesmo condutor no fim. Uma bateria de 18 anos, não. Quem paga a substituição de módulos, em que momento e sob qual regra de reajuste é uma pergunta que o contrato precisa responder — e que não tem análogo direto na transmissão tradicional.
A replicação. A própria EPE já tratou a iniciativa do Acre como experiência prática para aplicação de BESS em outras extremidades críticas da rede, citando Amapá e Roraima. Se o Lote 5 sair com deságio e executor competente, o planejamento passa a ter um instrumento novo: resolver confiabilidade em ponta de rede sem esperar cinco anos por uma linha. Fonte: Canal Solar
Os lotes condicionais. A permanência do Lote 12 depende da confirmação do montante de acessos até 16 de novembro, e o Lote 11 — instalações associadas à interligação Brasil–Bolívia — depende da definição no Plano de Outorgas e dos requisitos do acordo internacional. O Lote 5 não está nessa condição, mas o desenho do certame ainda pode se mexer até o edital final.
O recado
O Brasil passou 2026 inteiro discutindo bateria como ativo de geração: quantidade contratada, conteúdo nacional, bonificação locacional, tarifação e encargo. O Lote 5 abre uma frente paralela, menor em megawatts e maior em consequência regulatória: a bateria como infraestrutura de rede, remunerada por RAP, licitada em leilão de transmissão, sob concessão.
São 100 MW em um canto do Acre. Mas é a primeira vez que o planejador brasileiro olha para um gargalo de confiabilidade, compara bateria com térmica e com linha, e escolhe a bateria. Escrevemos aqui desde o começo do ano que o armazenamento deixaria de ser uma tecnologia em busca de mercado para virar ferramenta de planejamento. É exatamente isso que está acontecendo — e o prazo para opinar sobre como será a regra termina em 26 de outubro.
Análise produzida pelo Brasil BESS a partir da Consulta Pública nº 032/2026 da ANEEL, da Nota Técnica Conjunta nº 12/2026-SEL-SCE/ANEEL (2/9/2026), do estudo MME/EPE “Soluções para aumento da confiabilidade no atendimento às cargas de Feijó e Cruzeiro do Sul” (29/1/2026) e do Workshop de Integração de BESS ao Planejamento da Transmissão realizado pela EPE em 27/4/2026.
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